domingo, 19 de dezembro de 2010

A Rede Social

Por Juliano Gadelha



A Rede Social


The Social Network

EUA , 2010 - 120 minutos
Drama

Direção:
David Fincher

Roteiro:
Aaron Sorkin, Ben Mezrich (livro)

Elenco:
Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara, Max Minghella, Rashida Jone


A internet finalmente chegou ao cinema como tema central. Mas A Rede Social também pode ser visto como um filme que conta a história de um grande empreendedor, como O Povo Contra Larry Flint e Cidadão Kane. A diferença é que, ao contrário desses filmes, o empreendedor em questão era um universitário de apenas 19 anos quando deu origem à sua grande criação. Estamos falando de Mark Zuckerberg e do Facebook.
Logo no início do filme, o jeito peculiar de Zuckerberg (Jesse Eisenberg) nos é apresentado. Sua fala rápida, seus trejeitos meio mecânicos, e sua visão lógica sobre os relacionamentos dentro da Universidade. É um autêntico exemplar do Sheldon, do sitcom The Big Bang Theory, mas sem caricaturização. Ao contrário de Sheldon, entretanto, Zuckerberg preocupa-se em se integrar socialmente. No diálogo inicial, ele discute com a namorada Erica (Rooney Mara) um meio de ganhar popularidade no campus. Essa busca de integração é a faísca inicial de sua grande criação. Sincero a ponto de ser insensível e estúpido, Zuckerberg acaba transformando essa conversa em uma discussão, e daí surge um dos rompimentos mais estranhos do cinema. A importância dessa cena está em fazer o espectador conhecer o protagonista, sua dificuldade em se relacionar e sua falta de tato, características que terão influência no seguimento do enredo. Mas ele tem amigos. Bem, pelo menos um bom amigo, Eduardo Saverin (Andrew Garfield), que ainda jovem mostrava levar jeito para os negócios, e que era conhecido em Harvard por seus investimentos no ramo do petróleo. Quando Zuckerberg quer por em prática a ideia do Facebook, Saverin entra com o investimento de mil dólares, sendo co-fundador e assumindo o papel de gestor de negócios. Mas os dois mostram visões bem diferentes sobre o futuro do Facebook. Além disso, o interesse de Sean Parker (Justin Timberlake), fundador do Napster, na nova criação acaba afastando ainda mais os dois amigos. Paralelamente, Zuckerberg é acusado de ter roubado a ideia do Facebook dos gêmeos Winklevoss (ambos interpretados por Armie Hammer) e de Divya Narendra (Max Minghella). Zuckerberg consegue a popularidade que queria e muito mais, mas agora tem seu caráter e sua amizade postos à prova.
O excelente enredo é baseado no livro Bilionários por acaso: A Criação do Facebook, de Ben Mezrich. É até impressionante que uma trama de tanta qualidade e apelo tenha saído de um livro de não-ficção. Mas quanto a isso é preciso ter muito cuidado: por mais que falem que A Rede Social é baseado em fatos reais, é preciso se atentar ao fato de que Eduardo Saverin foi um consultor do livro de Mezrich, enquanto Zuckerberg se negou. Portanto, aos mais revoltados que saíram do cinema praguejando contra Mark Zuckerberg, e com pena de Eduardo Saverin, vamos com calma. O que o filme mostra é uma dramatização dos fatos, que pode representar apenas uma versão da história, e que não deve ser interpretada ao pé da letra. Sua função é servir aos fins cinematográficos, e esse objetivo é alcançado com excelência, pois, como se disse, a trama é muito boa e sua adaptação para o cinema foi muito bem feita, mérito do roteirista Aaron Sorkin.
David Fincher reitera mais uma vez seu talento, e é hoje um dos diretores mais competentes de Hollywood. Sua lista de trabalhos é de dar inveja: Clube da Luta, O Quarto do Pânico, Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button, entre outros. Fincher é moderno e tem a capacidade de fazer filmes agradáveis de assistir, e que por conseguinte fazem sucesso com o público, mas que também são aclamados pela crítica. Discreto e sempre com bons enredos, ele sabe prender a atenção sem ser espalhafatoso.
O filme conta com um elenco jovem e talentoso. Jesse Eisenberg, já bastante elogiado por seu trabalho em Zumbilândia, encarna Zuckerberg com uma naturalidade impressionante. Apesar da complexidade do papel , ele não deixa a peteca cair. Andrew Garfield rouba a cena como Eduardo Saverin. Os fãs de Homem-Aranha que olharam torto para ele quando foi escolhido para o papel de Peter Parker deve estar mais esperançosos depois de ver esse filme. Até Justin Timberlake se saiu bem. Tudo bem, Sean Parker é a cara dele, mas ele mostrou que leva jeito. Por fim, Armie Hammer, candidato a Superman, mostrou ser muito talentoso no papel duplo dos gêmeos Winklevoss. Ele conseguiu separar muito bem os dois personagens pela diferença de temperamento, o que é muito difícil em se tratando de gêmeos.
A Rede Social é um filme que inevitavelmente vai mexer com os valores das pessoas, com suas concepções de certo e errado e com seu poder de julgamento. O filme derruba a hipocrisia ao apresentar a história nua e crua sem escolher herois e vilões. As pessoas fazem coisas boas e ruins, e os acontecimentos vão se sucedendo. Cabe a cada um interpretar o que acontece como melhor lhe aprouver. Assim ocorre na vida.
A grande satisfação que esse filme traz é saber que o que acontece de verdade no nosso mundo ainda pode render histórias tão boas, de tanta qualidade que mais parecem ter saído da mente de um roteirista especializado em tramas conspiratórias. Quem espera uma bela cinebiografia vai ficar bastante decepcionado. Mas quem estiver esperando originalidade e um enredo bastante dinâmico, vai sair mais do que satisfeito do cinema.

4 comentários:

António Rosa disse...

Juliano e Leonardo

Vim desejar-vos umas Festas Felizes.

Abraço do

António

Victor Amano Izawa disse...

Opa Juliano, cara é isso mesmo, a versão do filme foi realmente baseada nos fatos contados pelo Eduardo e não pelo Zuckerberg. Isso significa que muitos fatos podem ter sido distorcidos e com certeza favorecendo o Saverin. Boa review.

Nelson L. Rodrigues disse...

A blogosfera nos reserva agradáveis surpresas. Conhecemos pessoas através de seus textos, entramos em contato para trocar ideias sobre interesses em comum, e um vínculo intelectual nasce.

Dessa observação sobe troca de conhecimento temático entre blogs, o FILOCINÉTICA e o CINEBULIÇÃO, nos unimos para criar um reconhecimento aos críticos e divulgadores da cultura cinematográfica. Nossa proposta, é premiar com o SELO INGMAR BERGMAN, bimestralmente, três blogs selecionados, que em nossa opinião e na opinião de nossos convidados para essa análise, trazem uma significativa contribuição para a crítica, reflexão ou divulgação da Sétima Arte.

Guiherme disse...

O filme é até legal, mas se analisarmos bem o criador do Facebook nada mais é que um infeliz ganancioso que proporciona o relacionamento entre as pessoas, mas ele próprio vive em um mundo isolado. O que adianta ser milionário assim? Vou seguir o blog.

http://acervodocinema.blogspot.com
http://memoriadasetimaarte.blogspot.com

 
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