segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada

Por Juliano Gadelha


As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada

The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Treader

EUA , 2010 - 115 minutos
Aventura / Fantasia

Direção:
Michael Apted

Roteiro:
Christopher Markus, Stephen McFeely, Michael Petroni

Elenco:
Georgie Henley, Skandar Keynes, Ben Barnes, Will Poulter, Gary Sweet, Terry Norris, Bille Brown


A adaptação da obra literária de C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, para o cinema, teve início em 2005, com toda a pompa dos estúdios Disney, e veio prometendo formar um páreo duro com Harry Potter. Mas O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, apesar de ir bem nas bilheterias, não impressionou a crítica. A sequência, Príncipe Caspian, melhorou a parte técnica e acrescentou ação à saga, mas fracassou nas bilheterias. Depois disso, a Disney desistiu de Nárnia, e a franquia passou para as mãos da 20th Century Fox. Ora, se a toda poderosa Disney falhou na tentativa de tornar As Crônicas de Nárnia uma grande saga cinematográfica, quem mais conseguiria? Quem melhor do que a Disney para criar clássicos infato-juvenis? E foi assim, desacreditado, aos trancos e barrancos, que o terceiro filme sobre a terra mágica de Nárnia, A Viagem do Peregrino da Alvorada, surpreendeu a todos.
Um ano após voltarem a Londres depois de sua última aventura em Nárnia, os irmãos Pevensie estão separados. Pedro (William Moseley) e Susana (Anna Popplewell) estão com os pais nos Estados Unidos, e Lúcia (Georgie Henley) e Edmundo (Skandar Keynes) ficaram na Inglaterra na casa dos tios, tendo de aguentar seu insuportável primo, Eustáquio Mísero (Will Poulter). Na casa eles encontram um quadro que retrata um navio em alto mar, e que os faz lembrar de Nárnia. Quando menos esperam, eles acabam arrastados para dentro do quadro, e logo descobrem que estão de volta a Nárnia, pois são resgatados pelo mencionado navio, onde encontram Caspian, agora rei Caspian X (Ben Barnes). Ele está em missão para resgatar sete fidalgos que eram amigos de seu pai, e que foram banidos pelo seu tio usurpador, o rei Miraz. Para isso, eles têm de navegar pelos mares desconhecidos do oriente e enfretar perigos inimagináveis. Além disso, eles (principalmente o rato Ripchip) nutrem a esperança de encontrar o país do poderoso Aslam (voz de Liam Neeson) no extremo oriente, o fim do mundo.
O filme conta com um bom roteiro. Várias mudanças foram feitas em relação ao livro, e foram muito positivas. Os livros de C.S. Lewis não trazem elementos suficientes para um roteiro, então muita coisa tem que ser acrescentada para tornar a adaptação viável. Os filmes anteriores também tiveram de mudar muito em relação aos respectivos livros, mas não obtiveram o mesmo sucesso que esse. Se nos outros os fãs chiaram bastante com as mudanças, nesse não há do que reclamar, pois conseguiram transformar um dos livros menos empolgantes de Lewis no melhor filme da franquia até agora.
Os efeitos visuais são parte importante do filme. Eles estão ainda melhores que em Príncipe Caspian, no qual já eram excelentes. A diferença é que esse filme exige mais. O barco, as criaturas mágicas, os tontópodes, os cenários paradisíacos, e o grande leão Aslam (cada vez mais realista), está tudo impecável. Só o dragão ficou um pouco abaixo do esperado, mais na parte conceitual do que estética, mas nada que comprometa o resultado final. A contribuição da direção de arte é providencial para esse resultado. O figurino, a maquiagem e os cenários dão a tônica do épico e do fantástico.
Até as atuações melhoraram. Para começar, William Moseley e Anna Popplewell, os irmãos mais velhos, quase não aparecem. E não deixam saudades. Sobra mais espaço para Georgie Henley, que vai melhorando à medida em que vai crescendo, e Skandar Keynes, o mais talentoso dos quatro. Ben Barnes, que já havia interpretado de maneira vacilante o príncipe Caspian no filme anterior, aparentemente amadureceu junto com o personagem (agora rei), pois está bem mais seguro no papel. Will Poulter foi a feliz escolha para o papel de Eustáquio. Ele é a cara do personagem. Só de olhar, dá para ver nele aquele menino mimado, arrogante e chato. Fiquemos de olho nele, pois ele deve voltar no próximo filme.
A Viagem do Peregrino da Alvorada é uma boa surpresa. Para quem já não esperava mais nada de Nárnia no cinema, eis a prova em contrário. O filme tem um bom enredo, personagens razoavelmente cativantes e criaturas e cenários de encher os olhos. Tem boas cenas de ação e é divertido de se ver. Mas ainda há detalhes que faltam à franquia. Primeiramente, em nenhum dos três filmes há uma cena realmente emocionante, como há vários filmes do mesmo gênero. Isso é uma carência da própria obra de Lewis, mas para uma adaptação cinematográfica desse tipo se faz necessário acrescentar um teor mais dramático, que mexa com o espectador e que o faça se afeiçoar e se identificar com os personagens. Daí surge um segundo problema, que é justamente o fato de os personagens serem desconhecidos pelo grande público. Por exemplo, todo mundo sabe quem são Harry, Rony e Hermione, e Gandalf e Frodo; mas quem sabe quem são os irmãos Pevensie ou Aslam? Muito poucos. Acaba que só quem leu os livros realmente conhece os personagens. E isso prejudica o desempenho do filme, pois quando o público se identifica com o personagem, vira receita garantida para o filme. E isso tem muito a ver com o carisma dos personagens e com o desempenho dos atores.
Apesar disso, o filme liderou durante várias semanas as bilheterias dos Estados Unidos e de vários países, inclusive do Brasil. A Fox deu declarações de estar satisfeita com o resultado do filme, o que indica que é provável que haja sequência. Ironicamente, vamos torcer para que seja mais Fox e menos Disney.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Tron - O Legado

Por Juliano Gadelha


Tron: O Legado

Tron Legacy
EUA , 2010 - 125 min.
Ficção científica

Direção:
Joseph Kosinski

Roteiro:
Edward Kitsis, Adam Horowitz

Elenco:
Jeff Bridges, Garrett Hedlund, Olivia Wilde, Bruce Boxleitner, James Frain, Beau Garrett, Michael Sheen, Anis Cheurfa, Serinda Swan, Yaya DaCosta, Elizabeth Mathis, Kis Yurij, Conrad Coates, Daft Punk


No fim dos anos 70, Steven Lisberger tentou vender sua ideia inusitada de um filme live-action com elementos de computação gráfica a vários estúdios, até que obteve sucesso com a Disney, cujo próprio criador tinha como lema superar limites e pensar à frente de seu tempo. Tron foi lançado em 1982, e abriu caminho para a computação gráfica no cinema, que inunda os filmes atualmente. Mas a tecnologia limitada da época, cerceou em parte a repercussão do filme entre os espectadores mais novos. Para dar ao mundo de Tron a roupagem do século XXI e fazer jus à obra original, a Disney produziu Tron: O Legado.
Nessa sequência, conhecemos Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho de Kevin Flynn (Jeff Bridges), que está sumido há mais 21 anos. Assim como seu pai, Sam é muito talentoso com computadores, e vive pregando peças na diretoria da ENCOM. Alan Bradley (Bruce Boxleitner), antigo amigo de Kevin Flynn, recebe um bipe vindo do velho arcade de Flynn. Sam decide investigar e acaba entrando no mundo virtual em que seu pai vinha trabalhando quando desapareceu.
O primeiro Tron recebeu e ainda recebe duras críticas pelo enredo. A sequencia não é muito melhor nesse quesito. A verdade é que o grande atrativo é ver o mundo virtual criado por Lisberger em 1982 com o melhor da tecnologia que temos hoje. Nesse ponto o filme não deixa a desejar. São cenas belíssimas de computação gráfica, e a tecnologia 3D se encaixou perfeitamente e coopera bastante. É um dos filmes que melhor soube usar o 3D até agora.
Merece destaque a construção do personagem CLU, que é nada mais do que Jeff Bridges vinte e poucos anos mais novo. A tecnologia é semelhante à usada em O Curioso Caso de Benjamin Button para que Brad Pitt parecesse mais jovem. Mas é óbvio que, comparado a Brad Pitt, Jeff Bridges exigiu mais trabalho dos profissionais. Além disso, CLU não é um coadjuvante, ele aparece muito, e interage bastante com os outros personagens, o que torna a utilização dessa tecnologia ainda mais complicada.
As atuações não mercem destaque. É claro que ver um ator consagrado e talentoso com Jeff Bridges é sempre muito agradável. E ele trabalhou bastante nesse filme. Mas de resto, não há muito para se falar. O protagonista, Garrett Hedlund, é apenas razoável, e seu personagem é meio sem sal. O mesmo vale para Olivia Wilde, a Quorra. Quem passou um pouco do ponto foi Michael Sheen. É um ótimo ator, já provou isso em outros filmes, mas exagerou demais na extravagância de seu personagem, o Castor.
Mas não tem como assistir o filme e não prestar atenção á trilha sonora. A música eletrônica da dupla francesa Daft Punk rouba a cena nas principais seqüências de ação. Eles até mesmo participam do filme. São os programas responsáveis pela música na boate do Castor, os DJs da festa.
Tron: O Legado é válido como uma experiência tecnológica, trazendo elementos que o primeiro filme era incapaz de trazer na época. Apesar de aprofundar um pouco o enredo em relação ao original, o roteiro parece um pouco sem rumo, meio perdido, sem objetivo, confuso. O filme tenta satisfazer o espectador com as cenas de ação e com um mundo virtual de encher os olhos. Como disse, foi uma experiência válida. Mas para que haja uma terceiro filme (o que provavelmente vai acontecer) é necessário trazer algo de novo à franquia, algo diferente, que atraia as pessoas ao cinema. Isso implica também trabalhar em um roteiro de qualidade, com uma história mais concatenada. Do contrário, um possível Tron 3 seria apenas um atraso cinematográfico.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Rede Social

Por Juliano Gadelha



A Rede Social


The Social Network

EUA , 2010 - 120 minutos
Drama

Direção:
David Fincher

Roteiro:
Aaron Sorkin, Ben Mezrich (livro)

Elenco:
Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rooney Mara, Max Minghella, Rashida Jone


A internet finalmente chegou ao cinema como tema central. Mas A Rede Social também pode ser visto como um filme que conta a história de um grande empreendedor, como O Povo Contra Larry Flint e Cidadão Kane. A diferença é que, ao contrário desses filmes, o empreendedor em questão era um universitário de apenas 19 anos quando deu origem à sua grande criação. Estamos falando de Mark Zuckerberg e do Facebook.
Logo no início do filme, o jeito peculiar de Zuckerberg (Jesse Eisenberg) nos é apresentado. Sua fala rápida, seus trejeitos meio mecânicos, e sua visão lógica sobre os relacionamentos dentro da Universidade. É um autêntico exemplar do Sheldon, do sitcom The Big Bang Theory, mas sem caricaturização. Ao contrário de Sheldon, entretanto, Zuckerberg preocupa-se em se integrar socialmente. No diálogo inicial, ele discute com a namorada Erica (Rooney Mara) um meio de ganhar popularidade no campus. Essa busca de integração é a faísca inicial de sua grande criação. Sincero a ponto de ser insensível e estúpido, Zuckerberg acaba transformando essa conversa em uma discussão, e daí surge um dos rompimentos mais estranhos do cinema. A importância dessa cena está em fazer o espectador conhecer o protagonista, sua dificuldade em se relacionar e sua falta de tato, características que terão influência no seguimento do enredo. Mas ele tem amigos. Bem, pelo menos um bom amigo, Eduardo Saverin (Andrew Garfield), que ainda jovem mostrava levar jeito para os negócios, e que era conhecido em Harvard por seus investimentos no ramo do petróleo. Quando Zuckerberg quer por em prática a ideia do Facebook, Saverin entra com o investimento de mil dólares, sendo co-fundador e assumindo o papel de gestor de negócios. Mas os dois mostram visões bem diferentes sobre o futuro do Facebook. Além disso, o interesse de Sean Parker (Justin Timberlake), fundador do Napster, na nova criação acaba afastando ainda mais os dois amigos. Paralelamente, Zuckerberg é acusado de ter roubado a ideia do Facebook dos gêmeos Winklevoss (ambos interpretados por Armie Hammer) e de Divya Narendra (Max Minghella). Zuckerberg consegue a popularidade que queria e muito mais, mas agora tem seu caráter e sua amizade postos à prova.
O excelente enredo é baseado no livro Bilionários por acaso: A Criação do Facebook, de Ben Mezrich. É até impressionante que uma trama de tanta qualidade e apelo tenha saído de um livro de não-ficção. Mas quanto a isso é preciso ter muito cuidado: por mais que falem que A Rede Social é baseado em fatos reais, é preciso se atentar ao fato de que Eduardo Saverin foi um consultor do livro de Mezrich, enquanto Zuckerberg se negou. Portanto, aos mais revoltados que saíram do cinema praguejando contra Mark Zuckerberg, e com pena de Eduardo Saverin, vamos com calma. O que o filme mostra é uma dramatização dos fatos, que pode representar apenas uma versão da história, e que não deve ser interpretada ao pé da letra. Sua função é servir aos fins cinematográficos, e esse objetivo é alcançado com excelência, pois, como se disse, a trama é muito boa e sua adaptação para o cinema foi muito bem feita, mérito do roteirista Aaron Sorkin.
David Fincher reitera mais uma vez seu talento, e é hoje um dos diretores mais competentes de Hollywood. Sua lista de trabalhos é de dar inveja: Clube da Luta, O Quarto do Pânico, Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button, entre outros. Fincher é moderno e tem a capacidade de fazer filmes agradáveis de assistir, e que por conseguinte fazem sucesso com o público, mas que também são aclamados pela crítica. Discreto e sempre com bons enredos, ele sabe prender a atenção sem ser espalhafatoso.
O filme conta com um elenco jovem e talentoso. Jesse Eisenberg, já bastante elogiado por seu trabalho em Zumbilândia, encarna Zuckerberg com uma naturalidade impressionante. Apesar da complexidade do papel , ele não deixa a peteca cair. Andrew Garfield rouba a cena como Eduardo Saverin. Os fãs de Homem-Aranha que olharam torto para ele quando foi escolhido para o papel de Peter Parker deve estar mais esperançosos depois de ver esse filme. Até Justin Timberlake se saiu bem. Tudo bem, Sean Parker é a cara dele, mas ele mostrou que leva jeito. Por fim, Armie Hammer, candidato a Superman, mostrou ser muito talentoso no papel duplo dos gêmeos Winklevoss. Ele conseguiu separar muito bem os dois personagens pela diferença de temperamento, o que é muito difícil em se tratando de gêmeos.
A Rede Social é um filme que inevitavelmente vai mexer com os valores das pessoas, com suas concepções de certo e errado e com seu poder de julgamento. O filme derruba a hipocrisia ao apresentar a história nua e crua sem escolher herois e vilões. As pessoas fazem coisas boas e ruins, e os acontecimentos vão se sucedendo. Cabe a cada um interpretar o que acontece como melhor lhe aprouver. Assim ocorre na vida.
A grande satisfação que esse filme traz é saber que o que acontece de verdade no nosso mundo ainda pode render histórias tão boas, de tanta qualidade que mais parecem ter saído da mente de um roteirista especializado em tramas conspiratórias. Quem espera uma bela cinebiografia vai ficar bastante decepcionado. Mas quem estiver esperando originalidade e um enredo bastante dinâmico, vai sair mais do que satisfeito do cinema.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1

Por Juliano Gadelha



Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1

Harry Potter and the Deathly Hallows - Part 1
EUA / Inglaterra , 2010 - 146 min.
Drama / Fantasia / Suspense

Direção: David Yates

Roteiro: Steve Kloves

Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Bill Nighy, Richard Griffiths, Harry Melling, Julie Walters, Bonnie Wright, Fiona Shaw, Alan Rickman, Carolyn Pickles, Toby Jones, Robbie Coltrane, Brendan Gleeson, James Phelps, Oliver Phelps, Mark Williams, George Harris, Andy Linden, Mundungus Fletcher, Domhnall Gleeson, Clémence Poésy, Natalia Tena, Evanna Lynch, Rhys Ifans, Matthew Lewis, David Thewlis, John Hurt

Nove anos se passaram desde o lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro da mais lucrativa série cinematográfica da história. Como toda adaptação de livro para o cinema, os filmes não agradaram a todos, e aliás, desagradaram a muitos, especialmente aos fãs. Sempre ficava aquela pergunta: porque os filmes de Harry Potter não saem tão bons quanto os de O Senhor dos Anéis? Mesmo nos melhores filmes da saga, parecia que faltava alguma coisa. Ainda assim, o sétimo filme, Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1, o início do fim, veio prometendo mudar essa história. Será que conseguiu?
No penúltimo episódio da saga de Harry, o enredo é bem singular em relação aos anteriores. Para começar, nada de Hogwarts. Harry (Daniel Radcliffe) não volta à escola que frequentou durante seis anos e que durante esse tempo considerou seu verdadeiro lar. Agora ele enfrenta o "mundo real" e se vê cada vez mais exposto e indefeso enquanto o poder de Lord Voldemort (Ralph Fiennes) não para de crescer. O cerco se fecha em torno dele e de seus fiéis amigos Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), e também de todos aqueles que o tomaram como estandarte na guerra contra "aquele-que-não-deve-ser-nomeado". "Harry é a única esperança que temos. Confiem nele". E parece que toda essa responsabilidade, que durante muito tempo lhe foi um peso inconveniente, agora já é aceita naturalmente por Harry, apesar de muitas vezes ele simplesmente não saber o que deve fazer. Toda essa mudança em relação aos outros filmes é o tão aguardado clímax final da série. Na verdade, se trata ainda de um pré-clímax, pois a parte 1 está, do início ao fim, nos preparando para parte 2.
Desde o Prisioneiro de Azkaban, a crítica (fomentada pelo marketing dos filmes, diga-se de passagem) tem divulgado um "Harry Potter mais sombrio", usando manchetes como "Harry não é mais criança" ou "o bruxinho cresceu", como se a série inteira devesse se ater ao clima mais infantil dos primeiros filmes. O tempo passou e tais manchetes se repetiam filme após filme. Mas sombrio de verdade é esse sétimo filme. Harry, Rony e Hermione nunca enfrentaram perigos tão intensos e nunca vivenciaram situações tão críticas como agora. Eles estão sendo postos à prova como pessoas, como bruxos e como amigos.
Entretanto, esse clima sombrio poderia ter sido intensificado. A conjuntura pede isso, o momento pede isso. Em algumas cenas, quando se espera uma explosão dramática dos personagens, o máximo que se tem é um silêncio constrangedor, um rosto vazio, olhares para o nada. Mais do mesmo. Isso já foi visto, e bastante, nos anteriores. Esse filme teve a oportunidade de se destacar ainda mais dos outros. Faltou radicalizar um pouco, explorar a emoção dos atores, fazer cenas realmente à flor da pele. Às vezes isso ocorre por deficiência do ator, mas muitas vezes é falha no roteiro mesmo, que não exige deles um pouco mais na cena. Oportunidades não faltaram. Ao longo do filme, várias cenas poderiam ter sido mais bem exploradas visando dar ao filme um ar de verdadeiro filme de drama.
Há, é claro, momentos emocionantes, mas também há momentos bobos, tolos demais para pertencer a um filme de teor dramático tão profundo. Assim como em A Ordem da Fênix e O Enigma do Príncipe, também de David Yates, há muitas cenas de humor forçado, neste menos que nos outros, mas que destoam ainda mais devido à constante sensação de perigo que abate os personagens.
O filme começa bastante corrido. A primeira hora segue um ritmo alucinante, até atropelado, deixando algumas passagens mal explicadas ou mesmo sem explicação. Quem não leu o livro vai ficar um pouco perdido. Depois, o filme dá uma enorme desacelerada e começa a se arrastar, sem lutas, sem cenas exaltadas. Os personagens analisam sua situação e pensam no que virá a seguir. Muitos vão considerar essa parte do filme bastante chata. Mas ela foi, na verdade, muito benéfica para o filme, pois conseguiu captar perfeitamente o momento pelo qual os personagens estavam passando. Nessa fase, há uma cena bastante interessante. Ouvimos o rádio, e o locutor lista os nomes dos desaparecidos, enquanto acompanhamos os três amigos perambulando, aparatando e desaparatando de um lugar para o outro, meio perdidos, sem saber para onde ir. Quem vê essa cena isolada nunca imaginará que se trata de um filme de Harry Potter. Mais parece um filme de guerra em que as pessoas aguardam, ansiosas, notícias de seus familiares. Essa é a intenção, e o resultado foi ótimo. Depois dessa pausa, o filme volta a ganhar ritmo, e o suspense e a ação tomam conta até o momento final.
Essa continuação sofre por erros cometidos nos anteriores. Muitos fatos importantes foram deixados de lado nos outros filmes, e tiveram de ser colocados às pressas neste, que já está abarrotado de informações. Mais uma vez quem não leu o livro vai ficar um pouco perdido. O prejuízo foi inevitável, mas a desgraça era anunciada. É claro que muita coisa ainda pode ser explicada na parte 2. Aliás, muito tem de ser explicado na parte 2, do contrário o filme estaria apenas soltando informações à toa sem maiores cuidados com a verossimilhança e com alógica do enredo. Aguardemos.
A atuação do trio de protagonistas não tem nada de novo. Daniel Radcliffe, como sempre, está apenas razoável. Mas, mesmo assim, o personagem parece estar tão intimamente ligado a ele, que seja lá o que o ator faça, ele parece bastante convincente como Harry. Rupert Grint é um pouco melhor que ele, e aparenta levar mais jeito como ator. Emma Watson já provou ser melhor que os dois, e, apesar de estar presa aos cacoetes da sua personagem, tem uma carreira promissora. Destaque para as curtas mas sempre valiosas participações de Ralph Fiennes, Alan Rickman, Jason Isaacs e Helena Bonham Carter.
A parte visual, como de costume, está impecável. O elfo doméstico Monstro está excelente, apesar de ter havido um certo retrocesso com relação a Dobby, comparado com o de Harry Potter e a Câmara Secreta. Destaque também para a excelente animação do "Conto dos Três Irmãos". A fotografia ficou a cargo do competentíssimo Eduardo Serra, que não decepcionou. Faltou um pouco de força e vigor à trilha sonora de Alexandre Desplat, e os famosos temas de John Williams fizeram falta. A boa notícia é que o compositor norte-americano retorna na parte 2.
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1 segue a tradição da série de faturar alto. Foram cerca de US$ 330 milhões no fim de semana de estréia ao redor do mundo, recorde da franquia. Mas o filme, em si, rompe com os outros em questão de estilo. Inevitável, pois a trama exige esse rompimento. Mas percebe-se uma certa resistência com relação a essa mudança natural, uma tentativa de incluir elementos dos anteriores nesse, o que foi bastante prejudicial. Mas isso não macula por completo o filme, que ainda assim é um dos melhores da série, graças à riqueza da trama, tão intensa e profunda, créditos que devem ser dados à obra que serviu de inspiração. Entretanto, permanece o sentimento de que Harry Potter pode mostrar mais nos cinemas. O sonho dos fãs de ver essa obra-prima da literatura transformada em uma obra-prima do cinema ainda não acabou. Resta uma chance. Será que agora vai?

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2

Por Juliano Gadelha


Tropa de Elite 2

Brasil , 2010 - 116 min
Ação / Drama

Direção:
José Padilha

Roteiro:
José Padilha, Bráulio Mantovani

Elenco:
Wagner Moura, André Ramiro, Maria Ribeiro, Pedro Van Held, Irandhir Santos, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Fernanda Machado, Tainá Müller

Fazer seqüências de filmes de sucesso é sempre um grande risco. Se você tem uma boa história para contar, a tendência é que saia um bom segundo filme. Caso contrário, acaba saindo um filme forçado e desagradável, comprometendo até a obra-prima. O fato é que a mentalidade da indústria do cinema só enxerga as cifras que uma seqüência pode gerar. Se o filme é bom ou ruim não importa. Exemplos não faltam. A série Resident Evil, que já conta com quatro filmes, é um verdadeiro fracasso de enredo, mas continua gerando muitos lucros, então os filmes não param de lançar. Esse ano mesmo tivemos Shrek Para Sempre, um grande exemplo de continuação desnecessária para uma franquia tão boa.
Em termos de Brasil, seqüências são raríssimas. O curto orçamento de nossa já frágil indústria não pode suportar esse risco. Mas isso tem mudado. Filmes de grande sucesso nacional têm tido continuações, como um investimento na expectativa de grande retorno. E não têm decepcionado, como Se Eu Fosse Você 2, grande sucesso de bilheterias. Agora é a vez de Tropa de Elite, filme que deu o que falar em 2007, ganhar sua continuação.
O primeiro Tropa de Elite teve na pirataria sua grande campanha de marketing, o que não impediu que se saísse bem nas bilheterias. O filme levantou grandes polêmicas acerca da polícia, do tráfico de drogas, e de diversas hipocrisias da sociedade brasileira. Tratou de diversos lugares-comuns do nosso cotidiano e da nossa cultura, mas de uma maneira diferente, por uma visão mais crua, e, conseqüentemente, chocante. A verdade é que foi um grande filme, um dos melhores já realizados no Brasil. Mas quando confirmaram que haveria seqüência, impossível não ficar com aquela pulguinha atrás da orelha. Não seria melhor parar por ali, depois do sucesso, das premiações, não seria melhor deixar como estava? Hoje posso responder: não, não seria.
Tropa de Elite 2 mostra um grande amadurecimento da franquia e do trabalho de seus realizadores, em vários sentidos. A fotografia, um dos destaques do primeiro, pelo clima sombrio que proporcionou ao filme, nesse está mais branda, em tons mais claros, mas igualmente impecável, graças ao talento de Lula Carvalho. Também merece destaque a seleção e preparação de elenco, em que mais uma vez Fátima Toledo pôde utilizar o seu polêmico mas eficaz método de "destruir atores". Os resultados são impressionantes. Nos dois Tropas não se vê nada daquelas interpretações novelescas ultradramáticas que insistem em se infiltrar no cinema brasileiro, comprometando, e muito, a verossimilhança dos diálogos. Wagner Moura, não é surpresa, está sensacional. Mostra mais uma vez que é um dos melhores atores do Brasil, e a sua entrega ao personagem é admirável. Fora ele, o filme está cheio de atuações dignas de nota, como o retorno de André Ramiro e Milhem Cortaz, o talentosíssimo Irandhir Santos e o hilário André Mattos. Mas Sandro Rocha, interpretando o Major Rocha, que nesse filme ganhou bastante importância, merece um destaque especial. Ele fez um vilão tão convincente que fica difícil dissociar sua imagem da dele. O público no cinema, tal qual os espectadores no Coliseu na Roma Antiga, pediam a cabeça daquele sujeito perverso, tal era a fúria e o desprezo que ele despertava.
O enredo também evolui, e aprofunda as problemáticas do primeiro. Como diz o subtítulo, "o inimigo agora é outro". Na verdade, o agora Tenente-Coronel Nascimento descobrirá quem são seus verdadeiros inimigos, como ele próprio diz. Dez anos depois, ele está com 40 anos, divorciado e com um filho adolescente. Ele continua no BOPE, mas seu trabalho não envolve confronto direto, ele apenas comanda. Entretanto, um incidente na penitenciária de Bangu I acaba mudando sua vida, e ele acaba se tornando Subsecretário de Segurança, assumindo funções burocráticas que são totalmente aversas ao seu estilo. Mesmo assim, Nascimento se adapta a esse novo meio, e encontra maneiras de combater o tráfico, através do fortalecimento do BOPE. Mas é nesse momento que ele descobre que a grande sujeira se encontra mais em cima, e os criminosos que ele vai enfrentar agora não podem ser derrotados nem com os mais avançados armamentos. Agora ele dá de frente com "o sistema". Fora isso, ele lida com o desafio de se aproximar de seu filho, e de ter um vida normal mesmo dentro da profissão que escolheu exercer.
Em seu fim de semana de estréia, Tropa de Elite 2 já levou cerca de 1,25 milhão de pessoas ao cinema, sendo a quinta maior abertura de todos os tempos nas bilheterias brasileiras, e deixando para trás grandes blockbusters americanos. Em se tratando de filmes brasileiros, Tropa 2 tem mais que o dobro do segundo colocado, Chico Xavier. É a maior abertura do ano no Brasil, superando A Saga Crepúsculo: Eclipse.
Além de um excelente filme, Tropa de Elite 2 é um estímulo às seqüências (às boas), e ao cinema brasileiro visto como investimento. É resultado do trabalho de pessoas que apostam no apuro técnico, no bom preparo dos atores, e no talento, é claro. Não sei se haverá um Tropa de Elite 3 ou algo do tipo, só espero que José Padilha, Wagner Moura e companhia continuem acreditando e insvestindo seu trabalho em nosso cinema, pois assim continuaremos colhendo belos frutos.

domingo, 19 de setembro de 2010

Nosso Lar


Nosso Lar

Brasil , 2010 - 102 min.
Drama

Direção:
Wagner de Assis

Roteiro:
Wagner de Assis

Elenco:
Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Rosanne Mulholland, Inez Viana, Rodrigo dos Santos, Werner Schünemann, Clemente Viscaíno, Othon Bastos, Ana Rosa, Paulo Goulart


A histórias que envolvem religião sempre atraíram muito as pessoas aqui no Brasil. O espiritismo parece ser a temática que mais desperta curiosidade. E não é de hoje. Primeiro foram as novelas, como A Viagem, O Profeta, e até mesmo agora com Escrito nas Estrelas. De uns anos para cá, essa tendência chegou ao cinema, se mostrando uma excelente forma de arrastar muita gente para as salas. Em 2008, Bezerra de Menezes, e esse ano Chico Xavier e Nosso Lar. Espíritas convictos ou apenas curiosos ou simpatizantes, as pessoas vão ao cinema para ver essas histórias.
Nosso Lar baseia-se na obra homônima de Chico Xavier, a primeira da coleção A Vida no Mundo Espiritual, composta pelas histórias atribuídas a André Luiz. André (Renato Prieto) era um médico brasileiro da década de 20, um homem sério e solene, como muitos de sua época, que trabalhava muito, e pouco tempo tinha para sua família. Apesar de atender a alguns pacientes com má vontade, todos o consideravam um bom homem, inclusive ele próprio. Até que, de repente, a morte lhe acometeu, e ele se deu conta de que a realidade era diferente. Ele foi parar em um Umbral, um local de dor e sofrimento, onde pôde refletir sobre suas atitudes em vida, e perceber que não agira de acordo com a Vontade Divina. O arrependimento o salva, e ele é levado à colônia de Nosso Lar. Lá ele se regenera, e se depara com uma realidade que jamais imaginou. Encontra uma espécie de mundo futurístico, mas onde as coisas que têm valor na Terra pouco importam. Suas habilidades e seu status de médico de nada servem. Só as atitudes, como a bondade e a compaixão, têm importância. André Luiz percebe que não é o bom homem que achava, e que tem muito a melhorar ainda.
Logo de cara, chama a atenção a beleza visual do filme. O nível de efeitos visuais e fotografia é inédito no Brasil. É, mas essa parte ficou a cargo dos gringos. O suíço Ueli Steiger, que também trabalho em 10,000 a.C. e em O Dia Depois de Amanhã, é o diretor de fotografia. Os efeitos foram desenvolvidos pela Intelligent Creatures, responsável também por filmes como Watchmen, Babel e Sr. & Sra. Smith. A trilha sonora é do compositor americano Phillip Glass. Essa qualidade sem precedentes custou caro. O filme teve orçamento de R$ 20 milhões, recorde no país. É o preço do cinema bem feito.
O elenco traz atores famosos da TV e do cinema, como Othon Bastos, Paulo Goulart e a recordista de novelas Ana Rosa, e também atores menos conhecidos, como Fernando Alves Pinto, o grande destaque do filme no papel de Lísias. Curiosamente, Renato Prieto, que interpreta o protagonista, é um dos menos experientes no cinema. Sua carreira é mais voltada para o teatro, tendo ele já encenado a peça Nosso Lar. Às atuações cabe uma crítica que vale para o cinema brasileiro em geral. Nós ainda temos um padrão de atuação muito teatralístico no cinema, quando deveríamos ter um modelo independente. A tragicomédia do teatro leva ao extremo dramático as emoções, e passar isso para o cinema é muito prejudicial. E não só no teatro, mas nas novelas também acontece assim. O cinema exige muito mais correspondência com a realidade do que o teatro. Portanto, levar a atuação teatral para o cinema deixa transparecer a inadequação e o exagero. Necessário, pois, desgarrar-se a atuação cinematográfica da teatral. Esse movimento já começou em filmes como Central do Brasil, Cidade de Deus e Tropa de Elite, em que a naturalidade dos atores melhora vertiginosamente a qualidade do filme. Não por coincidência, esses são três dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos.
O enredo é muito bem explorado. O diretor e roteirista Wagner de Assis conseguiu contar a história de maneira agradável e acessível até aos menos entendidos do assunto, o que é a grande preocupação nesse tipo de filme, ou seja, alcançar todos os públicos. Não cometeu os erros de Bezerra de Menezes, por exemplo, que mesmo tendo uma boa história em mãos, não passou de um roteiro confuso e entediante.
O filme tem sido arrasador nas bilheterias. Com menos de duas semanas em cartaz já havia arrecadado cerca de R$ 16 milhões, pouco menos que o aclamado A Origem, que já está há seis semanas em cartaz no Brasil. No ano, o filme só está atrás de Chico Xavier entre as produções nacionais, e a tendência é que logo cubra o seu orçamento recorde. O sucesso com o público também é mostrado na enquete do Ministério da Cultura para o Oscar 2011. Concorrendo com mais de 20 filmes, Nosso Lar tem cerca de 73% dos votos.
Nosso Lar é uma bela realização nacional. Quebrou barreiras e surpreendeu muita gente. Passa uma bela mensagem ao espectador, independentemente de sua crença, pois a história de vida (e morte) apresentada é uma lição para qualquer um. E é muito bom ver um filme brasileiro de tão boa qualidade, comparável a alguns filmes hollywoodianos (o "além" de Nosso Lar é bem melhor que o de Amor Além da Vida). Esperamos que esse seja o primeiro de muitos, e que cada vez mais os filmes daqui passem a prezar pela parte técnica, pois nossos profissionais já mostraram em produções anteriores a qualidade de seu trabalho. Que assim seja.

domingo, 5 de setembro de 2010

Parabéns, CineMatuto!


Pois é, hoje o CineMatuto completa 2 anos de vida! Tem sido uma experiência maravilhosa para nós do blog e espero que também para os que nos acompanham. Só temos a agradecer a vocês, que participam e nos ajudam a melhorar sempre. Agradecemos também aos nossos parceiros da blogosfera, loucos por cinema como nós: Polêmica Filmes, Cenas de Cinema, Cova do Urso e Cinestesia. E um agradecimento especial ao nosso amigo Diego Cavalcante, criador do nosso logotipo.
Nosso blog é tão novo, e já nos proporcionou tantos bons momentos. Desejamos que muitos mais venham pela frente, e convidamos todos os amantes do cinema para seguirem nessa jornada conosco.

Muito obrigado!

Juliano Gadêlha

 
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