quarta-feira, 30 de junho de 2010

Robin Hood


Robin Hood

EUA, Inglaterra , 2010 - 140 min
Épico / Guerra

Direção:
Ridley Scott

Roteiro:
Brian Helgeland, Ethan Reiff, Cyrus Voris

Elenco:
Russell Crowe, Cate Blanchett, Max von Sydow, William Hurt, Mark Strong, Oscar Isaac, Danny Huston, Eileen Atkins, Mark Addy, Matthew Macfadyen, Kevin Durand, Scott Grimes, Alan Doyle, Douglas Hodge

Desde o início do século passado, ainda no cinema mudo, a lenda de Robin Hood tem sido freqüentemente adaptada para as telonas, tendo inclusive uma versão Disney, muito conhecida por copiar cenas de dança de Mogli - O Menino Lobo. Mas desde 1991, quando Kevin Costner vestiu o capuz em Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões, ele tem sido a própria personificação do mito na mente das pessoas. Fugir da sombra desse sucesso e trazer algo novo para uma história repetida centenas de vezes, foram, sem dúvida, os maiores desafios do consagrado diretor Ridley Scott nessa nova empreitada.
A comparação com as antigas adaptações era inevitável, e acabou gerando uma onda negativa de pré-julgamento sobre o filme (do qual foi parte, inclusive, quem vos escreve). Principalmente porque, logo de cara, o que se vê é um Robin Hood (Russell Crowe) de cabelo curto e mais rechonchudo que o idolatrado Kevin Costner. Mas esse é o tipo de filme que não pode ser julgado pelo trailer.
O enredo começa antes das adaptações tradicionais, mostrando a participação de Robin Longstride na Terceira Cruzada, junto ao exército do rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston). Com a morte deste, ele retorna à Inglaterra e lá descobre a opressão causada pelo novo rei, João (Oscar Isaac). Ao lado da viúva Lady Marion (Cate Blanchett), ele lidera o povo do vilarejo de Nottingham e luta contra a tirania reinante no país.
Percebe-se um mudança de abordagem nessa adaptação. Há uma preocupação maior em explicar tudo a quem está assistindo, e mostrar uma história mais verossímil. O enredo é mais fiel à versão mais famosa da lenda, deixando de lado certos traços super-heróicos que o personagem principal adquiriu com o tempo. O Robin Hood de Crowe é um arqueiro muito habilidoso, mas sua grande força está em seu poder de liderança e no seu apurado conhecimento sobre táticas de batalha. O grande diferencial dessa nova adaptação é, justamente, tornar a história mais palpável, mais, digamos, "possível". Apesar disso, e como não podia deixar de ser, pode-se perceber algumas incongruências históricas. Só para ilustrar, na cena final os exércitos de Inglaterra e França estão em contingente muito pequeno, e usam cotas de malha e elmos que eram para poucos na época.
O elenco se apóia em dois nomes de peso, os vencedores do Oscar Russell Crowe e Cate Blanchett. Crowe repete a parceria com Ridley Scott (como em Gladiador e Um Bom Ano) e chega a surpreender na pele do protagonista. Uma surpresa boa, para quem esperava uma atuação apenas regular, sem sal. Mas não, ele se saiu bem, tanto quando exigido dramaticamente, quanto fisicamente, nas cenas de luta, mostrando que o gladiador ainda está em forma. Cate Blanchett vem de excelentes atuações em suas últimas produções, como em O Curioso Caso de Benjamin Button, mas nesta foi apenas regular. Muito culpa do personagem, que não exige muito.
Sem dúvida, o filme é uma boa diversão. Ele tenta conquistar o público logo no início, com boas seqüências de guerra, muita agitação, flachas zunindo e espadas tilintando. Se você não se empolgar com o início, dificilmente irá se empolgar com o restante. Pondo na balança, Robin Hood vale a pena. Apesar da história tão repetida e tão conhecida, a forma como ela é mostrada, mais conveniente com a época em que se passa, dissocia essa nova adaptação das anteriores, e prova não ser inútil, prova que ainda havia algo a ser mostrado. Além disso, o Robin que vemos é diferente do clássico que "rouba dos ricos para dar aos pobres". O foco do novo está mais voltado para a sua liderança e sua capacidade de negociar de igual para igual com os grandes, além de suas habilidades em batalha. Ele é mais humano, menos herói. É bem mais parecido com o homem da Idade Média.
Custando cerca de US$ 155 milhões, Robin Hood teve uma boa arrecadação no mundo, mas nos Estados Unidos deixou um pouco a desejar. A deixa para uma seqüência foi dada, será que vai acontecer? Por enquanto, nada certo. Mas fica o aviso: se for para contar história velha, melhor parar por aqui.

domingo, 16 de maio de 2010

Alice no País as Maravilhas



Alice no País das Maravilhas

Alice in Wonderland
EUA, 2010 - 108 min
Aventura / Fantasia

Direção: Tim Burton

Roteiro: Linda Woolverton

Produção: Tim Burton, Suzanne Todd, Jennifer Todd, Joe Roth

Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Timoty Spall, Michael Sheen, Alan Rickman, Christopher Lee, Anne Hathaway, Crispin Glover, Matt Lucas

Os Estúdios Disney investem cada vez mais alto em filmes live-action (quando os personagens são de carne e osso), deixando de lado o reconhecimento pelo público apenas por suas animações, principalmente depois do sucesso de bilheteria que foi a série cinematográfica Piratas do Caribe (Gore Verbinski). Para realizar o grandioso projeto Alice no País das Maravilhas (já produzido antes pela Disney, só que em animação), o estúdio contratou um velho parceiro, o cineasta Tim Burton (Os Fantasmas se Divertem), conhecido por apresentar ao público histórias sombrias e criativas, sejam elas originais ou adaptadas.
Em Alice no País das Maravilhas, a personagem central, Alice (Mia Wasikowska) já tem 19 anos e está prestes a receber um pedido de noivado. Ao tentar fugir de tal situação ela cai na toca do coelho e vai parar no País das Maravilhas pela segunda vez, sendo que a primeira foi, para Alice, apenas um sonho de sua infância. Desta vez ela tem a missão de destronar a Rainha Vermelha (Helena Bonham-Carter) e acabar com o seu reinado de terror.
Como é possível perceber, o filme de Tim Burton é uma continuação do livro homônimo de Lewis Carrol e, apesar de todo o potencial que a história inédita possa parecer ter, ela não se desenvolve e fica apenas numa chata mediocridade. Todos os personagens criados por Carrol e que marcaram a infância de muitos com animação da década de 50 da Disney estão, modificados ou não, presentes no filme, mas a importância que cada um tem no desenrolar da história modifica muitos aspectos de cada um, tornando, por exemplo, o Coelho Branco (Michael Sheen) quase um figurante e o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) o melhor amigo de Alice e exímio espadachim (modificações das quais ainda vou falar muito). Toda essa liberdade para mudar o criativo e excêntrico universo de Carrol prejudica bastante a qualidade do filme, mas traz algumas características positivas, como a imagem modificada da Rainha Vermelha, interpretada por Helena Bonham-Carter (Harry Potter e o Enigma do Príncipe), para que esta tivesse a cabeça desproporcinalmente maior que seu corpo, é geradora de boas risadas durante o filme.
Helena tem, sem dúvida, a melhor atuação e a melhor personagem do filme. A forma como sua interpretação e sua caracterização se encaixam para formar a Rainha Vermelha é incrível. Outros personagens que podem ser destacados são o Gato (Stephen Fry), a Lebre (Paul Withehouse) e os gêmeos Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas). A atriz central, Mia Wasikowska realiza um trabalho bem feito, mas nada demais, apenas como deveria ser. Em compensação, existem dois personagens que, apesar de seus intérpretes, não se saem nada bem. Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) interpreta a Rainha Branca, irmã da Rainha Vermelha. Seu jeito comportado e característico da nobreza é exagerado demais, o que torna a qualidade de sua interpretação duvidosa. Mas o maior problema é Johnny Depp (Edward Mãos-de-Tesoura), o queridinho de Tim Burton. Apesar de seus trabalhos fantásticos (não me lembro de ter um motivo sequer para falar mal de sua atuação antes), dessa vez Depp se sai mal, e principalmente por causa de seu personagem, o Chapeleiro Maluco. Como já disse antes, seu personagem deixa de ser coadjuvante para ser, neste filme, o personagem mais importante depois de Alice e é criado todo um drama ao redor da saudade do Chapeleiro pela protagonista desde que esta partiu do País das Maravilhas. Ficou bem claro que o personagem cresceu devido a escolha de Depp para o papel desde antes do lançamento do filme. Afinal, o principal pôster de divulgação estampa o Chapeleiro e os trailers davam destaque ao personagem.
Com todas as falhas, Tim Burton tinha que acertar em algo. E acertou, nos efeito especiais. Bem ao estilo do diretor, computação gráfica e fotografia se combinam muito bem. O mais incrível são as diferentes alturas que os personagens possuem sem impedir um alto nível de interatividade entre eles. As cenas que incluem os sapos da corte também são incríveis.
Indo contra toda a sua carreira, Tim Burton realiza um filme mediano onde o enredo é o que há de menos importante e de mais chato, apesar da grande espera do público. Se percebe as influências de Burton nos cenários e na caracterização dos personagens, mas pára por aí, e Alice no País das Maravilhas se torna o sexto filme a arrecadar mais de 1 bilhão de dólares de bilheteria, e o único dos seis que não merece toda essa atenção.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Homem de Ferro 2


Homem de Ferro 2

Iron Man 2
EUA , 2010 - 124 min.
Ação

Direção:
Jon Favreau

Roteiro:
Justin Theroux

Elenco:
Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson, Clark Gregg, John Slattery, Garry Shandling, Paul Bettany, Leslie Bibb

Em 2001, junto com o novo milênio, teve início também uma nova era para as adaptações cinematográficas dos super-heróis dos quadrinhos. Começaram a ficar para trás os trajes carnavalescos, os cenários irreais ao extremo e os enredos sem pé nem cabeça (vide os Batmans de Joel Schumacher). Não é que os filmes tenham ficado perfeitamente fiéis à nossa realidade, o que seria uma chatice. Mas parece que os produtores, diretores e roteiristas perceberam que o público não era burro, e passava a pedir algo mais. Homem-Aranha veio primeiro, trazendo outros dois filmes, formando juntos a melhor seqüência de adaptações dos quadrinhos para o cinema. Roupas mais fiéis às HQs, personagens mais fortes, cenários mais reais, enredo mais coerente e relevante. Era como se só aí os realizadores tivessem se dado ao trabalho de realmente ler os quadrinhos que deram origem aos filmes. Isso tudo sem deixar de arrecadar milhões nas bilheterias. Feliz o diretor, feliz o estúdio e felizes os fãs. Porém, esses devem ter ficado bem tristes com a notícia do fim da série de filmes do aracnídeo com Sam Raimi, Tobey Maguire e companhia. Mas ele deixou um herdeiro que promete seguir seus passos.

O primeiro filme do Homem de Ferro, de 2008, deixou todo mundo empolgado com seu excelente misto de ação, drama e comédia, e fez com que sua seqüência fosse um dos filmes mais aguardados de 2010. Pode-se dizer que valeu a pena esperar. Nesse novo filme, Tony Stark (Robert Downey Jr.) tem de lidar com as conseqüências de haver revelado ser o Homem de Ferro. Ele passa por sérios problemas de saúde decorrentes da armadura, e se vê diante de um novo vilão, Ivan Vanko (Mickey Rourke), antigo conhecido seu pai, aliado a Justin Hammer (Sam Rockwell), concorrente das empresas Stark. Ao seu lado, ele conta com a sempre fiel secretária Virgínia "Pepper" Potts (Gwyneth Paltrow), o melhor amigo James Rhodes (Don Cheadle), que agora é seu parceiro Máquina de Combate, além do líder da S.H.I.E.L.D. Nick Fury (Samuel L. Jackson), e da agente Natasha Romanov, a Viúva Negra (Scarlett Johansson).

O clima do primeiro filme é mantido nesse. É como se tivessem feito um só filme, e optado por dividí-lo, característica essa presente nas boas seqüências, como em Homem-Aranha 2 e Batman - O Cavaleiro das Trevas. Mas essa é, sem dúvida, a parte com mais ação. O ritmo é alucinante do início ao fim, com muitas explosões e combates de tirar o fôlego, com destaque para a Viúva Negra e sua técnica (o que é aquilo?!), uma das melhores cenas de luta no estilo vinte contra um. Nada disso seria possível, é claro, sem os irreparáveis efeitos visuais, que são indispensáveis e presentes a todo momento, como não podia deixar de ser.

Diferentemente de outros filmes de super-heróis, que trazem uma grande carga dramática, Homem de Ferro é mais ameno. Apesar de ter sua dose de drama, acaba puxando mais para comédia. Isso se deve muito à atuação de Robert Downey Jr., muito solto em cena e cômico como sempre, no seu melhor estilo, fazendo o que não conseguiu em Sherlock Holmes. Seus diálogos saem tão naturais, principalmente com Gwyneth Paltrow e Don Cheadle, com os quais demonstrou excelente química, que em certos momentos parecem estar improvisando, tanto que um atropela a fala do outro, falam ao mesmo tempo, o que é simplesmente perfeito (exceto para os pobres legendadores brasileiros, que de nada têm culpa se não é possível colocar todas as legendas na tela ao mesmo tempo). Ressalte-se que o ótimo ator Don Cheadle está muito bem como James Rhodes/Máquina de Combate, mostrando que Terrence Howard não vai deixar saudades.

Não se pode deixar de destacar o roteiro. Escrito por Justin Theroux, ele traz acontecimentos importantes para o seguimento da série, não permitindo que esse fosse uma daquelas seqüências irrelevantes lançadas só para faturar (Resident Evil 3 veste bem a carapuça). Personagens mais discretos no primeiro filme, ganham importência nesse, como o motorista Happy Hogan (o próprio diretor, Jon Favreau) e Nick Fury, líder da S.H.I.E.L.D. De certa maneira, é um roteiro complexo, visto ter que associar-se aos projetos paralelos da Marvel, como Os Vingadores e Thor.

Um dos personagens de quadrinhos mais adorados nos EUA, aqui no Brasil o Homem de Ferro ainda era deixado de lado antes do lançamento do primeiro filme. Uma grande prova da força dessa marca, é como ele virou febre aqui, apenas dois anos depois. A Marvel promete que esse é só o começo, pois já botou a mão na massa para fazer Thor, Capitão América, e um projeto mais grandioso, que seria único na história das adaptações cinematográficas de HQs: Os Vingadores. Ao contrário da DC, a Marvel mostra muita força de vontade para ter seus maiores personagens reunidos na tela do cinema. Se acrescentar a isso o capricho que teve em realizar Homem de Ferro 2, sorte a nossa.

sábado, 10 de abril de 2010

Chico Xavier



Chico Xavier

Chico Xavier
Brasil, 2010 - 125 min
Drama

Direção: Daniel Filho

Roteiro: Marcos Bernstein

Produção: Daniel Filho

Elenco: Nelson Xavier, Ângelo Antônio, Matheus Costa, Christiane Torloni, Tony Ramos, Letícia Sabatella, Pedro Paulo Rangel, Giulia Gam, Cássia Kiss, Cássio Gabus Mendes, André Dias, Paulo Goulart, Luís Melo

Adorado pelo público brasileiro, o cineasta Daniel Filho (Se Eu Fosse Você 2) está no auge de sua carreira. Ninguém melhor do que ele para receber o desafio de dirigir e produzir a cinebiografia Chico Xavier, filme que é lançado no ano de centenário do grande médium. É muita responsabilidade, principalmente para escolher a abordagem do filme, devido a curiosidade dos espectadores e a todos os tabus que envolvem o espiritismo.
Durante o filme, acompanhamos Chico Xavier de duas formas intercaladas: quando o médium foi convidado a participar do programa Pinga-Fogo da TV Tupi do dia 28 de julho de 1971 - edição esta que foi um marco na televisão brasileira devido a toda a polêmica envolvida; e desde sua infância, quando não sabia o que eram os casos estranhos e sobrenaturais que lhe rondavam, até a sua fase adulta, quando fundou o seu primeiro Centro Espírita. Junto com a parte mais atual da história, nos é apresentado o drama de um casal que teve seu filho supostamente assassinado pelo melhor amigo, mas este jura que foi um acidente.
Chico Xavier é uma adaptação de As Vidas de Chico Xavier, do jornalista Marcel Souto Maior. Como já foi dito antes, a história vai e volta, cronologicamente falando. Mérito para o roteirista, que consegue realizá-lo de forma clara e sem enrolações. O roteiro também honra o texto inicial do filme, que informa que foram escolhidos os momentos mais importantes de Francisco para serem mostrados, pois seria impossível mostrar tudo que era importante. A escolha das passagens é perfeita, com as dosagens corretas de drama e humor, tudo com grande compromisso para com a realidade, o que pode ser comprovado no créditos, quando imagens reais do programa Pinga-Fogo são exibidas.
A escolha de elenco não poderia ser melhor. Matheus Costa (Muito Gelo e Dois Dedos D'Água), Ângelo Antônio (2 Filhos de Francisco) e Nelson Xavier (Narradores de Javé) interpetam Chico na infância, fase adulta e terceira idade (ou quase isso), respectivamente. Todos três fazem um trabalho excelente, com destaque para os dois últimos, que conseguem adquirir uma semelhança muito grande com o personagem no modo de agir. Sem dúvida, Ângelo Antônio foi quem ficou com o maior desafio que, sem dúvida, foi superado: conseguir fazer uma grande interpretação do médium, mesmo sem possuir semelhanças físicas consideráveis. O contrário ocorre com Nelson Xavier, que tem aparência, voz e presença que se confundem com Cândido Xavier quando o ator está interpretando o personagem. O intéprete hesitou em aceitar a proposta de atuar no filme por um tempo, devido à sua crença agnóstica, mas acabou entrando no projeto, e sempre se emociona quando se toca no assunto, pois diz que o filme mudou totalmente a sua visão de Deus.
No outro núcleo do filme, temos Tony Ramos (Se Eu Fosse Você 2) e Christiane Torloni (Onde Andará Dulce Veiga?) que, como sempre, fizeram uma interpretação belíssima. Uma das cenas mais marcantes do filme é realizada pelos dois, onde seus personagens leem uma psicografia do próprio Chico Xavier.
Grande parte do mérito do filme vai para o diretor e produtor do filme Daniel Filho, que sempre agradou ao público, mas só com seus últimos projetos tem conseguido "amansar" a crítica. Além da qualidade de grande parte de seus filmes, a quantidade de produções em que Daniel Filho está e esteve envolvido é incomparável, a nível de Brasil. Com Chico Xavier, o diretor mostrou de que modo devem ser mostrados ao públicos temas polêmicos como religião: de forma imparcial. O espiritismo não se torna, em nenhum momento, o centro do filme. Tudo o que observamos é mostrado através da visão e dos relatos do próprio Chico e de fatos, ou seja, verdades. O saudoso Francisco Cândido Xavier apresentado é, antes de médium e espírita, um homem dedicado à compaixão e à caridade.
Chico Xavier é tudo aquilo que Lula - O Filho do Brasil deveria ter sido e não foi: um sucesso de bilheteria, uma obra cinematográfica com uma excelente qualidade técnica, uma história apresentada de forma aberta, fiel à realidade e um grande acréscimo ao cinema brasileiro.
Com o centenário de Chico Xavier, podemos esperar para 2010 mais uma aparição de Nelson Xavier como Cândido no cearense As Mães de Chico Xavier (Glauber Rocha) e mais uma superprodução brasileira e espírita, Nosso Lar (Wagner de Assis). Para os curiosos e simpatizantes, resta torcer e esperar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Lembranças


Lembranças

Remember Me
EUA , 2010 - 113
Drama / Romance

Direção:
Allen Coulter

Roteiro:
Will Fetters

Elenco:
Robert Pattinson, Pierce Brosnan, Emilie de Ravin, Chris Cooper, Lena Olin, Martha Plimpton

Os dramas românticos nos últimos tempos têm ficado repetitivos demais, a ponto de muitos nem mais incluírem esse gênero como uma possibilidade em suas idas ao cinema. Contamos nos dedos os filmes desse tipo que realmente trouxeram algo de novo ultimamente, como Um Amor Para Recordar e P.S. Eu Te Amo.

Lembranças trouxe como grande estandarte atrativo o astro da Saga Crepúsculo e queridinho das adolescentes Robert Pattinson. Isso levou várias garotinhas histéricas ao cinema, mas também espantou vários marmanjos que não queriam ver o vampiro Edward em ação. Bem, os que se arriscaram nesta tarefa tiveram uma boa surpresa.

O enredo é focado em dois personagens principais e suas famílias problemáticas, e como seus destinos acabam se encontrando. Tyler Hawkings (Robert Pattinson) é um jovem de uma família de classe alta, mas que saiu de casa após o suicídio de seu irmão mais velho, e desde então mantém uma relação difícil com seu pai, Charles (Pierce Brosnan). Tyler acaba se envolvendo em uma confusão com um policial, Neil Craig (Chris Cooper), e vai preso. Mais tarde ele descobre que uma garota da sua faculdade, Ally (Emilie de Ravin) é filha de Neil, e é convencido por um amigo que chamá-la para sair seria a melhor maneira de se entender com o policial. Assim acontece, e eles começam a se conhecer melhor e acabam se apaixonando. Mas essa relação é posta em jogo quando Neil descobre com quem sua filha está saindo.

A sinopse pode fazer transparecer mais um clichê romântico, mas não é bem assim. Os problemas familiares são bem mais intensos no filme que a própria história de amor. É como se esta fosse só um chamariz para se discutir questões bem mais relevantes. Vemos duas estruturas familiares bem diferentes, mas problemas bem semelhantes, guardadas as devidas singularidades. Ally viu sua mãe ser assassinada, e depois disso nunca conseguiu ser próxima de seu pai. Tyler culpa seu pai pelo suicídio de seu irmão, que era seu melhor amigo. A relação dos dois se resume a acusações recíprocas e discussões freqüentes, além de uma extrema dificuldade de expressar seus sentimentos e até de se comunicar mesmo.

Olhando os nomes no elenco antes da sessão, só o nome de Emilie de Ravin me animou. Velha conhecida dos fãs de Lost, a australiana provou seu talento nas telonas também. Quanto a Robert Pattinson e Pierce Brosnan, bem, digamos que nunca fui muito fã dos dois. Mas eles se saem bem tentando escapar de seus estereotipados personagens Edward e James Bond, respectivamente. Pattinson ainda lembra muito o tal vampiro em determinadas cenas, mas nesse filme pôde provar que tem capacidade para fazer mais do que demonstrou em suas óbvias e enfadonhas cenas na saga vampiresca. Ele e Brosnan são postos à prova em uma intensa cena, no melhor estilo "lavação de roupa suja" entre pai e filho. Vale também destacar a atuação do talentoso Chris Cooper, que já havia participado de filmes como Tempo de Matar e Beleza Americana.

Esse é apenas o segundo filme dirigido por Allen Coulter (Hollywoodland - Bastidores da Fama), que dirigiu vários episódios de seriados americanos, como A Família Soprano e Sex and the City. O filme também conta com Robert Pattinson como produtor executivo, além de protagonista.

Para aqueles que ainda não desistiram do gênero drama/romance no cinema, não deixem de conferir Lembranças. É um filme muito bom, por mais que todos os elementos façam essa possibilidade parecer remota. Surpreendente do início ao fim, mas principalmente no fim. Aguardem e confiem.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Sherlock Holmes



Sherlock Holmes
Sherlock Holmes
EUA/Inglaterra, 2010 - 128 min
Ação/Aventura/Mistério/Policial

Direção: Guy Ritchie

Roteiro: Michael Robert Johnson, Anthony Peckham, Simon Kinberg

Produção: Lionel Wigran, Susan Downey, Joel Silver, Dan Lin

Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Mark Strong, Eddie Marsan, Kelly Reilly

Seguindo a forte tendência atual das adaptações cinematográficas modernizadas de livros, quadrinhos, séries e até mesmo de obras cinematográficas, chega aos cinemas Sherlock Holmes.
Na história, quando Lorde Blackwood (Mark Strong) ressuscita depois de ter sido condenado à morte devido aos seus rituais satanistas e de magia negra, o detetive Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e seu fiel amigo Dr. Watson (Jude Law) assumem o caso, o último da parceria, por decisão de Watson. Além de ter de salvar a Inglaterra dos planos de Blackwood, Holmes recebe a visita inusitada de uma antiga rival, Irene Adler (Rachel McAdams).
Como já disse, o filme é bastante moderno, apesar de se passar no século XIX, o que não obrigatoriamente é ruim. O problema é que o roteiro se preocupa tanto em se diferenciar de tudo que já se viu de Sherlock Holmes que acaba exagerando e esquecendo o enredo, os diálogos, o roteiro de uma forma geral. São várias as conversações desnecessárias, cenas totalmente dispensáveis e piadas forçadas.
Quanto as piadas, existem algumas muito boas, mas não espere muitas mais do que as que se vê nos trailers. Fora isso, são tantas cenas de ação, recheadas de grandes explosões e destruições, que muitos podem confundir com algum filme de Jason Statham.
O enredo tem um bom argumento, mas que quando desenvolvido deixa muitas pontas da história soltas, fora que Guy Ritchie (Rockn'Rolla - A Grande Roubada) não pareceu ligar muito para o desenrolar da história. Ele só queria modernizar. Descaracterizar, na minha opinião.
Descaracterizar, pois não vemos Holmes nem muito menos Watson nas telas. Tudo bem que Sherlock é ótimo boxeador, mas isso não significa que ele vá passar a película quase inteira batendo em capangas. Dr. Watson se torna a dupla do detetive nas brigas e o amigo fiel que aguenta as loucuras do outro. Não é preciso muito para notar o quanto isso lembra outros dois personagens, Tony Stark e James Rhodes, sendo estes da outra franquia de sucesso de Robert Downey Jr. (Zodíaco), o grande sucesso Homem de Ferro.
A modernização está presente em muitos aspectos, inclusive na fotografia escurecida, que dá um aspecto sombrio e industrial à cidade de Londres. Em compensação, há momentos em que não se consegue entender o que está acontecendo em cena, devido à excessiva falta de luz Os efeitos visuais são medianos, bem ao estilo Harry Potter e a Ordem da Fênix.
O elenco tem vários nomes já marcantes, mas de uma geração nova. Robert Downey Jr. faz um personagem ao qual já está acostumado a interpretar, com exceção do sotaque, em filmes como Zodíaco e Homem de Ferro, como já foi dito antes. A atuação de Jude Law mal pode ser analisada, pois Dr. Watson se torna, neste filme, um personagem bem "feijão-com-arroz". Mark Strong faz um vilão muito fraco, não por não ser um bom intérprete, mas sim por Blackwood ir perdendo seu caráter intimidador, fora que as explicações para seus atos e para como conseguiu realizá-los são vagas e forçadas. Talvez a personagem mais relevante seja Irene, interpretada pela ótima atriz Rachel McAdams (Voo Noturno), que é responsável pela maioria das poucas situações realmente engraçadas do filme.
Apesar de todos os defeitos, Sherlock Holmes atingiu a sua meta: ganhar dinheiro. O filme arrecadou, só nos EUA, mais de 200 milhões de dólares, tendo gasto apenas 90 milhões de dólares. Somente na estreia, que aconteceu no dia de Natal do ano passado, o filme de Guy Ritchie faturou 25 milhões de dólares (cerca de 44 milhões de reais).
Falho por toda a sua ganância, a mais nova aventura de Holmes apresenta apenas dois aspectos positivos: a possibilidade de se ver dentro da mente de Sherlock e uma boa deixa para uma sequência, o que não chega nem perto de compensar todo o resto.
Pagar para assistir Sherlock Holmes só não é uma total perda de dinheiro e tempo devido ao seu pouquíssimo, mas existente, quesito diversão.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Lula - O Filho do Brasil


Lula - O Filho do Brasil
Lula - O Filho do Brasil
Brasil, 2010 - 128 min
Drama

Direção: Fábio Barreto
Roteiro: Denise Paraná, Fábio Barreto, Fernando Bonassi, Daniel Tendler
Produção: Paula Barreto, Rômulo Marinho Jr.
Elenco: Rui Ricardo Dias, Glória Pires, Felipe Falanga, Guilherme Tortólio, Cléo Pires, Juliana Baroni, Milhem Cortaz

Lançado como grande promessa e com o maior orçamento do cinema brasileiro, Lula - O Filho do Brasil foi dito tendencioso e limitado por grande parte da crítica e até mesmo do público.
Como não poderia ser diferente, a cinebiografia do nosso atual presidente gerou polêmica antes mesmo de ser lançado, devido ao ano de seu lançamento (último ano do segundo mandato de Luiz Inácio e ano de eleições para presidente), o que, por incrível que pareça, fez com que a bilheteria inicial do filme fosse muito abaixo do esperado.
O enredo percorre pela história de Luiz Inácio da Silva (Rui Ricardo Dias) desde o seu nascimento, passando pela sua chegada ao estado de São Paulo ainda aos sete anos de idade, sua formação como torneiro mecânico, a entrada para o Sindicato dos Trabalhadores e outros diversos momentos importantes, como perdas familiares. E para por aí. Nem mesmo a entrada de Lula para a política propriamente dita (participação em partidos políticos), ou seja, deixa de contar metade de sua vida. Apesar disso, seria uma grande injustiça dizer que o roteiro não possui qualidade. Muito pelo contrário. O drama está muito bem representado em diversas cenas do filme, fora as passagens geniais, como o discurso de Luiz em uma grande reunião de Sindicato num estádio de futebol. Infelizmente é preciso apresentar mais um "porém" em relação ao roteiro. O filme é uma adaptação do livro homônimo da escritora Denise Paraná e, através deste livro, foram identificadas várias inverdades, com destaque para uma delas. Em uma cena de considerável importância do filme, Lula está em uma greve do Sindicato dos Trabalhadores em uma fábrica, onde em determinado momento o dono da fábrica atira e então os participantes do movimento jogam homem armado do alto de uma passarela. Lula fica estupefato com o acontecimento e diz algo como: "Mas ele não tem nada a ver com isso!" Já no livro, em declaração do próprio presidente: "O Dono da Fábrica atirou e o pessoal o jogou pela janela, acho que ele morreu. Eu fiquei assustado mas acho que o pessoal estava fazendo justiça." Dispensa mais comentários.
Diferentemente do roteiro, o elenco só merece elogios. Depois das desistências dos atores João Miguel (O Céu de Suely) e Tay Lopes (Última Parada 174), quem assumiu de vez o papel do Lula adulto foi o até então desconhecido Rui Ricardo Dias, que realiza um trabalho incrível e faz seu personagem ir do dramático ao cômico e imitar todos os trejeitos de presidente com um incrível realismo. Outra cara nova que merece destaque é o pequeno Felipe Falanga, que interpreta Luis Inácio da Silva aos seus sete anos de idade. O garoto faz uma ótima cena ao lado de Milhem Cortaz (Tropa de Elite), que faz o papel do pai de Lula. Fora os novatos, os destaques vão para Glória Pires (Se Eu fosse Você 2) e Juliana Baroni (Sonho de Verão), que interpretam, respectivamente, Dona Lidú, mãe de Lula, e Marisa, segunda mulher do protagonista. Por trás da câmeras o filme também tem bons resultados. Comandado por quase toda a família Barreto, direção e fotografia são da maior qualidade. Só se pode reclamar da falta de coragem da produção de realizar um projeto como Che (Steven Sorderberg) e contar numa possível segunda parte do filme a entrada de Lula para a política. Apesar de ser um filme com ótimos atores e um excelente desenrolar de história, Lula – O Filho do Brasil falha com a verdade, algo que decepciona a muitos e que acaba “queimando o filme” do presidente. Se seus realizadores achavam que iam evitar polêmica sobre o passado de Luiz Inácio Lula da Silva alterando alguns acontecimentos, se enganaram, pois a situação só piorou. E com a promessa de cerca de dez filmes de outros políticos brasileiros já encaminhados, surge a reflexão: se foi preciso mudar partes da história até do Lula, imagina o que vai ser do filme de José Sarney.

 
© 2007 Template feito por Templates para Você