domingo, 19 de setembro de 2010

Nosso Lar


Nosso Lar

Brasil , 2010 - 102 min.
Drama

Direção:
Wagner de Assis

Roteiro:
Wagner de Assis

Elenco:
Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Rosanne Mulholland, Inez Viana, Rodrigo dos Santos, Werner Schünemann, Clemente Viscaíno, Othon Bastos, Ana Rosa, Paulo Goulart


A histórias que envolvem religião sempre atraíram muito as pessoas aqui no Brasil. O espiritismo parece ser a temática que mais desperta curiosidade. E não é de hoje. Primeiro foram as novelas, como A Viagem, O Profeta, e até mesmo agora com Escrito nas Estrelas. De uns anos para cá, essa tendência chegou ao cinema, se mostrando uma excelente forma de arrastar muita gente para as salas. Em 2008, Bezerra de Menezes, e esse ano Chico Xavier e Nosso Lar. Espíritas convictos ou apenas curiosos ou simpatizantes, as pessoas vão ao cinema para ver essas histórias.
Nosso Lar baseia-se na obra homônima de Chico Xavier, a primeira da coleção A Vida no Mundo Espiritual, composta pelas histórias atribuídas a André Luiz. André (Renato Prieto) era um médico brasileiro da década de 20, um homem sério e solene, como muitos de sua época, que trabalhava muito, e pouco tempo tinha para sua família. Apesar de atender a alguns pacientes com má vontade, todos o consideravam um bom homem, inclusive ele próprio. Até que, de repente, a morte lhe acometeu, e ele se deu conta de que a realidade era diferente. Ele foi parar em um Umbral, um local de dor e sofrimento, onde pôde refletir sobre suas atitudes em vida, e perceber que não agira de acordo com a Vontade Divina. O arrependimento o salva, e ele é levado à colônia de Nosso Lar. Lá ele se regenera, e se depara com uma realidade que jamais imaginou. Encontra uma espécie de mundo futurístico, mas onde as coisas que têm valor na Terra pouco importam. Suas habilidades e seu status de médico de nada servem. Só as atitudes, como a bondade e a compaixão, têm importância. André Luiz percebe que não é o bom homem que achava, e que tem muito a melhorar ainda.
Logo de cara, chama a atenção a beleza visual do filme. O nível de efeitos visuais e fotografia é inédito no Brasil. É, mas essa parte ficou a cargo dos gringos. O suíço Ueli Steiger, que também trabalho em 10,000 a.C. e em O Dia Depois de Amanhã, é o diretor de fotografia. Os efeitos foram desenvolvidos pela Intelligent Creatures, responsável também por filmes como Watchmen, Babel e Sr. & Sra. Smith. A trilha sonora é do compositor americano Phillip Glass. Essa qualidade sem precedentes custou caro. O filme teve orçamento de R$ 20 milhões, recorde no país. É o preço do cinema bem feito.
O elenco traz atores famosos da TV e do cinema, como Othon Bastos, Paulo Goulart e a recordista de novelas Ana Rosa, e também atores menos conhecidos, como Fernando Alves Pinto, o grande destaque do filme no papel de Lísias. Curiosamente, Renato Prieto, que interpreta o protagonista, é um dos menos experientes no cinema. Sua carreira é mais voltada para o teatro, tendo ele já encenado a peça Nosso Lar. Às atuações cabe uma crítica que vale para o cinema brasileiro em geral. Nós ainda temos um padrão de atuação muito teatralístico no cinema, quando deveríamos ter um modelo independente. A tragicomédia do teatro leva ao extremo dramático as emoções, e passar isso para o cinema é muito prejudicial. E não só no teatro, mas nas novelas também acontece assim. O cinema exige muito mais correspondência com a realidade do que o teatro. Portanto, levar a atuação teatral para o cinema deixa transparecer a inadequação e o exagero. Necessário, pois, desgarrar-se a atuação cinematográfica da teatral. Esse movimento já começou em filmes como Central do Brasil, Cidade de Deus e Tropa de Elite, em que a naturalidade dos atores melhora vertiginosamente a qualidade do filme. Não por coincidência, esses são três dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos.
O enredo é muito bem explorado. O diretor e roteirista Wagner de Assis conseguiu contar a história de maneira agradável e acessível até aos menos entendidos do assunto, o que é a grande preocupação nesse tipo de filme, ou seja, alcançar todos os públicos. Não cometeu os erros de Bezerra de Menezes, por exemplo, que mesmo tendo uma boa história em mãos, não passou de um roteiro confuso e entediante.
O filme tem sido arrasador nas bilheterias. Com menos de duas semanas em cartaz já havia arrecadado cerca de R$ 16 milhões, pouco menos que o aclamado A Origem, que já está há seis semanas em cartaz no Brasil. No ano, o filme só está atrás de Chico Xavier entre as produções nacionais, e a tendência é que logo cubra o seu orçamento recorde. O sucesso com o público também é mostrado na enquete do Ministério da Cultura para o Oscar 2011. Concorrendo com mais de 20 filmes, Nosso Lar tem cerca de 73% dos votos.
Nosso Lar é uma bela realização nacional. Quebrou barreiras e surpreendeu muita gente. Passa uma bela mensagem ao espectador, independentemente de sua crença, pois a história de vida (e morte) apresentada é uma lição para qualquer um. E é muito bom ver um filme brasileiro de tão boa qualidade, comparável a alguns filmes hollywoodianos (o "além" de Nosso Lar é bem melhor que o de Amor Além da Vida). Esperamos que esse seja o primeiro de muitos, e que cada vez mais os filmes daqui passem a prezar pela parte técnica, pois nossos profissionais já mostraram em produções anteriores a qualidade de seu trabalho. Que assim seja.

domingo, 5 de setembro de 2010

Parabéns, CineMatuto!


Pois é, hoje o CineMatuto completa 2 anos de vida! Tem sido uma experiência maravilhosa para nós do blog e espero que também para os que nos acompanham. Só temos a agradecer a vocês, que participam e nos ajudam a melhorar sempre. Agradecemos também aos nossos parceiros da blogosfera, loucos por cinema como nós: Polêmica Filmes, Cenas de Cinema, Cova do Urso e Cinestesia. E um agradecimento especial ao nosso amigo Diego Cavalcante, criador do nosso logotipo.
Nosso blog é tão novo, e já nos proporcionou tantos bons momentos. Desejamos que muitos mais venham pela frente, e convidamos todos os amantes do cinema para seguirem nessa jornada conosco.

Muito obrigado!

Juliano Gadêlha

sábado, 28 de agosto de 2010

A Origem


A Origem

Inception
EUA / Reino Unido , 2010 - 148 minutos
Ficção científica / Suspense

Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan

Elenco: Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ken Watanabe, Tom Hardy, Cillian Murphy, Tom Berenger, Dileep Rao, Michael Caine, Lukas Haas, Pete Postlethwaite

Depois de resgatar o Batman das profundezas cinematográficas e fazer um dos melhores filmes da década, Christopher Nolan virou sinônimo de eficiência em Hollywood. Essa é uma das razões que explicam o fato de A Origem ter sido tão aguardado. Outra é que o protagonista é Leonardo DiCaprio. E outra é o roteiro audacioso e instigante. Seja qual foi a razão que fez você ir ao cinema, provavelmente você saiu de lá, no mínimo, satisfeito com o que viu.
DiCaprio é Dom Cobb, o melhor ladrão do mundo no que diz respeito a surrupiar segredos do subconsciente das pessoas, ou seja, invadir seus sonhos para extrair informações valiosas sem que elas se deem conta. Graças ao seu talento, Cobb virou um fugitivo internacional e foi obrigado a viver afastado de seus filhos. A chance de ter de volta sua vida surge em um último e quase impossível trabalho: dessa vez, ele não deve roubar, mas implantar uma informação na "origem", fazendo com que a pessoa ache que pensou naquilo por si mesmo. Ele forma uma equipe com os melhores do mundo em cada função, mas tem como grande obstáculo a sua falecida mulher, Mal (Marion Cotillard), a qual ele não consegue afastar de sua mente, e que sempre tenta atrapalhar o cumprimento de suas missões.
O enredo exige 100% de atenção do espectador. No início, é simples, dá a base do filme, ou seja, mostra como funciona a extração das informações, e como essa técnica é utilizada em jogos de poder pelos grandes magnatas mundiais. Depois, com o desafio posto, é um momento de preparação, e a aproximação entre os personagens acaba abrindo espaço para um mergulho no drama de Cobb, que parece ser o único a ter um vida pregressa, afinal, tudo gira em torno dele, e dele tudo depende, para o bem ou para o mal. Da metade em diante, a história passa mexer mais com o raciocínio de quem assiste, pois eles vão passando de camada em camada, um sonho dentro do outro, prendendo a atenção, enquanto as peças do quebra-cabeça de Cobb vão sendo soltas aos poucos, e os mais atentos passam a perceber que o que realmente importa não é o sucesso ou fracasso daquela missão, mas a distinção entre o que é real e o que é sonho. Essa é a grande questão do filme, o que gerou infindáveis controvérsias e teorias de todo tipo entre o público. O roteirista Nolan pode dar-se por satisfeito, o objetivo foi alcançado. Ainda sobre o roteiro, deve-se notar, entretanto, a presença de uma ou outra incongruência, principalmente nas cenas de ação.
O elenco é bastante talentoso, e tem a cara de Christopher Nolan. Cillian Murphy, Ken Watanabe e principalmente Michael Caine são figurinhas carimbadas em seus filmes. DiCaprio mais uma vez mostra a regularidade de suas atuações nos últimos anos, nada superlativo, mas uma prova de seu talento para protagonista. Destaque para a primeira parceria entre o bom ator Joseph Gordon-Levitt e Christopher Nolan, que pode gerar mais bons frutos no futuro, já que fortes rumores apontam o ator como possível Charada no terceiro Batman de Nolan.
Outra grande atração do filme, que encheu os olhos de quem viu os trailers, são os efeitos visuais. A imaginação ilimitada da mente humana exige efeitos igualmente ilimitados, e o que se vê são cidades se dobrando, virando de cabeça para baixo, e também slowmotions de tirar o fôlego, além dos paradoxos, uma das boas sacadas do filme. Tudo isso marcado pela excelente fotografia de Wally Pfister, que tem cadeira cativa nos filmes de Nolan, parceria essa que já rendeu três indicações ao Oscar de Melhor Fotografia.
A Origem liderou por muito tempo as bilheterias americanas e é um grande sucesso no mundo todo, tendo o boca-a-boca como uma forte arma de marketing. Se esperava muito desse filme e pode-se dizer que ele correspondeu. Agora, deixando de lado a parte técnica, a bilheteria e a divulgação, a verdade é que a grande conquista desse filme foi arrancar aquele "OOOOOOOHHHHH" do público no filnal; foi fazer as pessoas discutirem o filme enquanto saíam da sala de cinema; foi fazê-las continuarem discutindo nas redes sociais, na internet, formulando inúmeras teorias; foi fazê-las continuarem intrigadas até agora, e com aquela vontade de assistir o filme mais uma vez para ver se não deixaram passar nada. É, o filme foi um sucesso!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Fúria de Titãs



Fúria de Titãs

Clash of the Titans
EUA/Inglaterra, 2010 - 106 min
Ação / Aventura / Fantasia / Épico

Direção: Louis Leterrier

Roteiro: Matt Manfredi, Travis Beacham, Phil Hay

Produção: Kevin De La Noy, Basil Iwanyk

Elenco: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Mads Mikkelsen, Izabella Miko, Jason Flemyng, Hans Matheson, Vincent Regan, Gemma Arterton, Alexa Davalos

Quanto mais o tempo passa maior é o número de astros do cinema que são criados, principalmente aqueles classificados como "caras da ação", ou algo do tipo. Só que agora eles fazem menos sucesso que antigamente. Nas décadas de 80 e 90 nós tínhamos Silvester Stallone (Rambo e Rocky), Jean-Claude Van Damme (Soldado Universal e O Grande Dragão Branco), Arnold Schwarzenegger (O Exterminador do Futuro e Conan, o Bárbaro), entre muitos outros, e todos nós sabíamos quem eram. Já os novos atores dos filmes de ação não têm seus nomes tão lembrados quanto os primeiros, mas ainda assim são identificados pelo público como "aquele que fez 300" ou "aquele que fez Carga Explosiva", por exemplo. Dentre eles está Sam Worthington, aquele que fez Avatar,o grande astro do nosso filme em questão, Fúria de Titãs.
O longa é um remake do filme homônimo de 1981 e segue a mesma linha da história original. Worthington (O Exterminador do Futuro: A Salvação) intepreta o pescador Perseu que, após a morte de sua família por Hades (Ralph Fiennes), descobre ser, na verdade, um semideus filho de Zeus (Liam Neeson). Com a rebeldia dos homens para com os deuses, Zeus decide castigar os humanos através da destruição causada pelo monstro Kraken e Perseu é o escolhido para detê-lo.
E a graça da história acaba aí. Não há nenhuma surpresa ou momento um pouco mais emocionante que o todo, pois até mesmo o clímax do filme é muito sem graça. São cenas corridas demais, lutas rápidas e confusas, devido à fotografia mal-elaborada, e, quando entendíveis são óbvias demais, assim como toda a história. Fora isso, nenhum personagem nos é apresentado direito, o que faz com que todos sejam coadjuvantes (bem ao estilo Transformers: A Vingança dos Derrotados), até mesmo o próprio Perseu, que a cada cinco falas tem quatro frases de efeito ditas e Zeus, o rei do Olimpo, que cai nas pegadinhas maléficas de seu irmão Hades, senhor do submundo, que subestimam a inteligência de qualquer um.
O elenco, apesar dos grandes nomes, peca (e muito) na atuação. Começa com Sam Worthington, que não parece ser o mesmo ator que interpretou tão bem o ciborgue Marcus Wright e satisfatoriamente o fuzileiro Jake Sully. A falta de naturalidade nas falas e nas expressões, fora o personagem fraco, são as principais características do ator nesse filme. Quem também decepciona é Liam Neeson (Busca Implacável), intérprete de um Zeus não muito inteligente e bastante contraditório, o que acaba com todo o poder que o deus grego tem na mitologia. Os únicos dois atores que se salvam são Ralph Fiennes (Harry Potter e a Ordem da Fênix), que interpreta Hades, e Mads Mikkelsen (007 - Cassino Royale), na pele do mal-encarado Draco, mas ainda assim nada demais, principalmente para atores tão bons como eles. Em resumo, a produção parece ter tido uma péssima direção de atores, pois, mesmo com grandes nomes no elenco, não conseguiu nem chegar perto do que se esperava.
Como todo filme de mitologia, Fúria de Titãs necessita de bastantes efeitos especiais, desde a maquiagem até a computação gráfica. Nesse aspecto, é ponto para a equipe, pois as ambientações são maravilhosas e grande parte é natural. Outra parte é construída, mesmo que seja para ser destruída por monstros computadorizados em questão de segundos. Esta nova tendência dos cineastas - de fazer ou construir tudo aquilo que pode ser feito e usar a computação em último caso - foi seguida à risca por Leterrier (Carga Explosiva) e sua equipe de produção. O problema é quando a computação gráfica se faz necessária. Apesar de bons efeitos, é notório o contraste entre real e computação gráfica, pois os seres mitológicos criados por computador tem uma textura um pouco puxada para os desenhos, como acontece em Harry Potter e a Ordem da Fênix e Sherlock Holmes. Nas cenas de batalha com a Medusa e com o Kraken essa falha - ou estilização, não se sabe - fica bem clara.
Entediante, Fúria de Titãs é o tipo de filme que, passados os primeiros dois minutos de exibição, o espectador já sabe como vai ser o desenvolvimento e a conclusão da trama. É difícil de acreditar que o diretor desse filme é Louis Leterrier, o mesmo que dirigiu os excelentes Carga Explosiva e O Incrível Hulk, os dois com ótimos efeitos especiais, sequências de ação bastante criativas e enredos envolventes. Com a provável realização de uma continuação, resta pedir aos deuses que o segundo filme seja muito bom ou nem saia do papel.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Robin Hood


Robin Hood

EUA, Inglaterra , 2010 - 140 min
Épico / Guerra

Direção:
Ridley Scott

Roteiro:
Brian Helgeland, Ethan Reiff, Cyrus Voris

Elenco:
Russell Crowe, Cate Blanchett, Max von Sydow, William Hurt, Mark Strong, Oscar Isaac, Danny Huston, Eileen Atkins, Mark Addy, Matthew Macfadyen, Kevin Durand, Scott Grimes, Alan Doyle, Douglas Hodge

Desde o início do século passado, ainda no cinema mudo, a lenda de Robin Hood tem sido freqüentemente adaptada para as telonas, tendo inclusive uma versão Disney, muito conhecida por copiar cenas de dança de Mogli - O Menino Lobo. Mas desde 1991, quando Kevin Costner vestiu o capuz em Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões, ele tem sido a própria personificação do mito na mente das pessoas. Fugir da sombra desse sucesso e trazer algo novo para uma história repetida centenas de vezes, foram, sem dúvida, os maiores desafios do consagrado diretor Ridley Scott nessa nova empreitada.
A comparação com as antigas adaptações era inevitável, e acabou gerando uma onda negativa de pré-julgamento sobre o filme (do qual foi parte, inclusive, quem vos escreve). Principalmente porque, logo de cara, o que se vê é um Robin Hood (Russell Crowe) de cabelo curto e mais rechonchudo que o idolatrado Kevin Costner. Mas esse é o tipo de filme que não pode ser julgado pelo trailer.
O enredo começa antes das adaptações tradicionais, mostrando a participação de Robin Longstride na Terceira Cruzada, junto ao exército do rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston). Com a morte deste, ele retorna à Inglaterra e lá descobre a opressão causada pelo novo rei, João (Oscar Isaac). Ao lado da viúva Lady Marion (Cate Blanchett), ele lidera o povo do vilarejo de Nottingham e luta contra a tirania reinante no país.
Percebe-se um mudança de abordagem nessa adaptação. Há uma preocupação maior em explicar tudo a quem está assistindo, e mostrar uma história mais verossímil. O enredo é mais fiel à versão mais famosa da lenda, deixando de lado certos traços super-heróicos que o personagem principal adquiriu com o tempo. O Robin Hood de Crowe é um arqueiro muito habilidoso, mas sua grande força está em seu poder de liderança e no seu apurado conhecimento sobre táticas de batalha. O grande diferencial dessa nova adaptação é, justamente, tornar a história mais palpável, mais, digamos, "possível". Apesar disso, e como não podia deixar de ser, pode-se perceber algumas incongruências históricas. Só para ilustrar, na cena final os exércitos de Inglaterra e França estão em contingente muito pequeno, e usam cotas de malha e elmos que eram para poucos na época.
O elenco se apóia em dois nomes de peso, os vencedores do Oscar Russell Crowe e Cate Blanchett. Crowe repete a parceria com Ridley Scott (como em Gladiador e Um Bom Ano) e chega a surpreender na pele do protagonista. Uma surpresa boa, para quem esperava uma atuação apenas regular, sem sal. Mas não, ele se saiu bem, tanto quando exigido dramaticamente, quanto fisicamente, nas cenas de luta, mostrando que o gladiador ainda está em forma. Cate Blanchett vem de excelentes atuações em suas últimas produções, como em O Curioso Caso de Benjamin Button, mas nesta foi apenas regular. Muito culpa do personagem, que não exige muito.
Sem dúvida, o filme é uma boa diversão. Ele tenta conquistar o público logo no início, com boas seqüências de guerra, muita agitação, flachas zunindo e espadas tilintando. Se você não se empolgar com o início, dificilmente irá se empolgar com o restante. Pondo na balança, Robin Hood vale a pena. Apesar da história tão repetida e tão conhecida, a forma como ela é mostrada, mais conveniente com a época em que se passa, dissocia essa nova adaptação das anteriores, e prova não ser inútil, prova que ainda havia algo a ser mostrado. Além disso, o Robin que vemos é diferente do clássico que "rouba dos ricos para dar aos pobres". O foco do novo está mais voltado para a sua liderança e sua capacidade de negociar de igual para igual com os grandes, além de suas habilidades em batalha. Ele é mais humano, menos herói. É bem mais parecido com o homem da Idade Média.
Custando cerca de US$ 155 milhões, Robin Hood teve uma boa arrecadação no mundo, mas nos Estados Unidos deixou um pouco a desejar. A deixa para uma seqüência foi dada, será que vai acontecer? Por enquanto, nada certo. Mas fica o aviso: se for para contar história velha, melhor parar por aqui.

domingo, 16 de maio de 2010

Alice no País as Maravilhas



Alice no País das Maravilhas

Alice in Wonderland
EUA, 2010 - 108 min
Aventura / Fantasia

Direção: Tim Burton

Roteiro: Linda Woolverton

Produção: Tim Burton, Suzanne Todd, Jennifer Todd, Joe Roth

Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Timoty Spall, Michael Sheen, Alan Rickman, Christopher Lee, Anne Hathaway, Crispin Glover, Matt Lucas

Os Estúdios Disney investem cada vez mais alto em filmes live-action (quando os personagens são de carne e osso), deixando de lado o reconhecimento pelo público apenas por suas animações, principalmente depois do sucesso de bilheteria que foi a série cinematográfica Piratas do Caribe (Gore Verbinski). Para realizar o grandioso projeto Alice no País das Maravilhas (já produzido antes pela Disney, só que em animação), o estúdio contratou um velho parceiro, o cineasta Tim Burton (Os Fantasmas se Divertem), conhecido por apresentar ao público histórias sombrias e criativas, sejam elas originais ou adaptadas.
Em Alice no País das Maravilhas, a personagem central, Alice (Mia Wasikowska) já tem 19 anos e está prestes a receber um pedido de noivado. Ao tentar fugir de tal situação ela cai na toca do coelho e vai parar no País das Maravilhas pela segunda vez, sendo que a primeira foi, para Alice, apenas um sonho de sua infância. Desta vez ela tem a missão de destronar a Rainha Vermelha (Helena Bonham-Carter) e acabar com o seu reinado de terror.
Como é possível perceber, o filme de Tim Burton é uma continuação do livro homônimo de Lewis Carrol e, apesar de todo o potencial que a história inédita possa parecer ter, ela não se desenvolve e fica apenas numa chata mediocridade. Todos os personagens criados por Carrol e que marcaram a infância de muitos com animação da década de 50 da Disney estão, modificados ou não, presentes no filme, mas a importância que cada um tem no desenrolar da história modifica muitos aspectos de cada um, tornando, por exemplo, o Coelho Branco (Michael Sheen) quase um figurante e o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) o melhor amigo de Alice e exímio espadachim (modificações das quais ainda vou falar muito). Toda essa liberdade para mudar o criativo e excêntrico universo de Carrol prejudica bastante a qualidade do filme, mas traz algumas características positivas, como a imagem modificada da Rainha Vermelha, interpretada por Helena Bonham-Carter (Harry Potter e o Enigma do Príncipe), para que esta tivesse a cabeça desproporcinalmente maior que seu corpo, é geradora de boas risadas durante o filme.
Helena tem, sem dúvida, a melhor atuação e a melhor personagem do filme. A forma como sua interpretação e sua caracterização se encaixam para formar a Rainha Vermelha é incrível. Outros personagens que podem ser destacados são o Gato (Stephen Fry), a Lebre (Paul Withehouse) e os gêmeos Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas). A atriz central, Mia Wasikowska realiza um trabalho bem feito, mas nada demais, apenas como deveria ser. Em compensação, existem dois personagens que, apesar de seus intérpretes, não se saem nada bem. Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) interpreta a Rainha Branca, irmã da Rainha Vermelha. Seu jeito comportado e característico da nobreza é exagerado demais, o que torna a qualidade de sua interpretação duvidosa. Mas o maior problema é Johnny Depp (Edward Mãos-de-Tesoura), o queridinho de Tim Burton. Apesar de seus trabalhos fantásticos (não me lembro de ter um motivo sequer para falar mal de sua atuação antes), dessa vez Depp se sai mal, e principalmente por causa de seu personagem, o Chapeleiro Maluco. Como já disse antes, seu personagem deixa de ser coadjuvante para ser, neste filme, o personagem mais importante depois de Alice e é criado todo um drama ao redor da saudade do Chapeleiro pela protagonista desde que esta partiu do País das Maravilhas. Ficou bem claro que o personagem cresceu devido a escolha de Depp para o papel desde antes do lançamento do filme. Afinal, o principal pôster de divulgação estampa o Chapeleiro e os trailers davam destaque ao personagem.
Com todas as falhas, Tim Burton tinha que acertar em algo. E acertou, nos efeito especiais. Bem ao estilo do diretor, computação gráfica e fotografia se combinam muito bem. O mais incrível são as diferentes alturas que os personagens possuem sem impedir um alto nível de interatividade entre eles. As cenas que incluem os sapos da corte também são incríveis.
Indo contra toda a sua carreira, Tim Burton realiza um filme mediano onde o enredo é o que há de menos importante e de mais chato, apesar da grande espera do público. Se percebe as influências de Burton nos cenários e na caracterização dos personagens, mas pára por aí, e Alice no País das Maravilhas se torna o sexto filme a arrecadar mais de 1 bilhão de dólares de bilheteria, e o único dos seis que não merece toda essa atenção.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Homem de Ferro 2


Homem de Ferro 2

Iron Man 2
EUA , 2010 - 124 min.
Ação

Direção:
Jon Favreau

Roteiro:
Justin Theroux

Elenco:
Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson, Clark Gregg, John Slattery, Garry Shandling, Paul Bettany, Leslie Bibb

Em 2001, junto com o novo milênio, teve início também uma nova era para as adaptações cinematográficas dos super-heróis dos quadrinhos. Começaram a ficar para trás os trajes carnavalescos, os cenários irreais ao extremo e os enredos sem pé nem cabeça (vide os Batmans de Joel Schumacher). Não é que os filmes tenham ficado perfeitamente fiéis à nossa realidade, o que seria uma chatice. Mas parece que os produtores, diretores e roteiristas perceberam que o público não era burro, e passava a pedir algo mais. Homem-Aranha veio primeiro, trazendo outros dois filmes, formando juntos a melhor seqüência de adaptações dos quadrinhos para o cinema. Roupas mais fiéis às HQs, personagens mais fortes, cenários mais reais, enredo mais coerente e relevante. Era como se só aí os realizadores tivessem se dado ao trabalho de realmente ler os quadrinhos que deram origem aos filmes. Isso tudo sem deixar de arrecadar milhões nas bilheterias. Feliz o diretor, feliz o estúdio e felizes os fãs. Porém, esses devem ter ficado bem tristes com a notícia do fim da série de filmes do aracnídeo com Sam Raimi, Tobey Maguire e companhia. Mas ele deixou um herdeiro que promete seguir seus passos.

O primeiro filme do Homem de Ferro, de 2008, deixou todo mundo empolgado com seu excelente misto de ação, drama e comédia, e fez com que sua seqüência fosse um dos filmes mais aguardados de 2010. Pode-se dizer que valeu a pena esperar. Nesse novo filme, Tony Stark (Robert Downey Jr.) tem de lidar com as conseqüências de haver revelado ser o Homem de Ferro. Ele passa por sérios problemas de saúde decorrentes da armadura, e se vê diante de um novo vilão, Ivan Vanko (Mickey Rourke), antigo conhecido seu pai, aliado a Justin Hammer (Sam Rockwell), concorrente das empresas Stark. Ao seu lado, ele conta com a sempre fiel secretária Virgínia "Pepper" Potts (Gwyneth Paltrow), o melhor amigo James Rhodes (Don Cheadle), que agora é seu parceiro Máquina de Combate, além do líder da S.H.I.E.L.D. Nick Fury (Samuel L. Jackson), e da agente Natasha Romanov, a Viúva Negra (Scarlett Johansson).

O clima do primeiro filme é mantido nesse. É como se tivessem feito um só filme, e optado por dividí-lo, característica essa presente nas boas seqüências, como em Homem-Aranha 2 e Batman - O Cavaleiro das Trevas. Mas essa é, sem dúvida, a parte com mais ação. O ritmo é alucinante do início ao fim, com muitas explosões e combates de tirar o fôlego, com destaque para a Viúva Negra e sua técnica (o que é aquilo?!), uma das melhores cenas de luta no estilo vinte contra um. Nada disso seria possível, é claro, sem os irreparáveis efeitos visuais, que são indispensáveis e presentes a todo momento, como não podia deixar de ser.

Diferentemente de outros filmes de super-heróis, que trazem uma grande carga dramática, Homem de Ferro é mais ameno. Apesar de ter sua dose de drama, acaba puxando mais para comédia. Isso se deve muito à atuação de Robert Downey Jr., muito solto em cena e cômico como sempre, no seu melhor estilo, fazendo o que não conseguiu em Sherlock Holmes. Seus diálogos saem tão naturais, principalmente com Gwyneth Paltrow e Don Cheadle, com os quais demonstrou excelente química, que em certos momentos parecem estar improvisando, tanto que um atropela a fala do outro, falam ao mesmo tempo, o que é simplesmente perfeito (exceto para os pobres legendadores brasileiros, que de nada têm culpa se não é possível colocar todas as legendas na tela ao mesmo tempo). Ressalte-se que o ótimo ator Don Cheadle está muito bem como James Rhodes/Máquina de Combate, mostrando que Terrence Howard não vai deixar saudades.

Não se pode deixar de destacar o roteiro. Escrito por Justin Theroux, ele traz acontecimentos importantes para o seguimento da série, não permitindo que esse fosse uma daquelas seqüências irrelevantes lançadas só para faturar (Resident Evil 3 veste bem a carapuça). Personagens mais discretos no primeiro filme, ganham importência nesse, como o motorista Happy Hogan (o próprio diretor, Jon Favreau) e Nick Fury, líder da S.H.I.E.L.D. De certa maneira, é um roteiro complexo, visto ter que associar-se aos projetos paralelos da Marvel, como Os Vingadores e Thor.

Um dos personagens de quadrinhos mais adorados nos EUA, aqui no Brasil o Homem de Ferro ainda era deixado de lado antes do lançamento do primeiro filme. Uma grande prova da força dessa marca, é como ele virou febre aqui, apenas dois anos depois. A Marvel promete que esse é só o começo, pois já botou a mão na massa para fazer Thor, Capitão América, e um projeto mais grandioso, que seria único na história das adaptações cinematográficas de HQs: Os Vingadores. Ao contrário da DC, a Marvel mostra muita força de vontade para ter seus maiores personagens reunidos na tela do cinema. Se acrescentar a isso o capricho que teve em realizar Homem de Ferro 2, sorte a nossa.

 
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